terça-feira, 8 de outubro de 2013

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Não fosse o Cabral...






Meu nome de nascimento é Giselle Rocha Soares, eu nasci na cidade de São Paulo, SP, no ano de 1976, tenho 37 anos, sou filha de tipógrafo/encadernador, cresci ouvindo as opiniões esquerdistas do meu pai e de avô paterno. Cresci acreditando que o comunismo era a melhor solução para o Brasil e eu realmente acreditei por um tempo que seria bom se não houvesse distinções de classe, se o poder pertencesse ao proletariado e que deveríamos evitar o consumismo desenfreado etc. Mas em 1987 me oferecem um Big Mac e eu aceitei e gostei. Dois anos depois Berlim me mostrou que o comunismo podia não ser tão legal assim... Afinal de contas eu estava começando a achar legal ver pela televisão, jornais e revistas todas as coisas, viagens e mundos que eu não tinha, não vivia, mas queria e que algumas pessoas tinham disso tudo... E muito.

Aí fiz o que me disseram que era o certo, estudar, cursar universidade e se possível uma pós-graduação. De repente, aos 19 anos eu era professora de artes numa escola pública, de um ano para o outro eu só mudei o ângulo da minha mesa. Era uma criança tapando o buraco que o governo não conseguia fechar. A professora efetiva estava doente e colocaram uma garota de 19 anos, cursando o primeiro ano da universidade para dar aulas. Eu nem sabia por onde começar. Mas comecei e tentando sempre fazer o melhor, até que não me saí tão mal assim, até hoje meus ex-alunos me escrevem doces lembranças no Facebook, agradecem as aulas, pensamentos e tudo que aprenderam (que bom!) sobre arte e formação de gosto pessoal. Enfim, dei aulas de 1995 até 2011. Prestei concursos públicos, passei me exonerei larguei a escola pública, passei pelas particulares, voltei para a pública, me exonerei novamente até abandonar o magistério de vez...


Essa noite me peguei pensando no porquê de eu ter abandonado a minha profissão. Foram vários fatores, mas o principal deles foi a descrença. Eu parei de acreditar no que estava fazendo, conversava com os alunos e eles trazem todos os tipos de problemas para a sala de aula. Nossos filhos revelam para os professores muito mais do que nós, enquanto pais, conseguimos captar deles...


O que acontece com o povo brasileiro? Eu não sou antropóloga, não sou estudiosa da área, mas não quero ficar calada e acho que valho mais escrevendo do que caminhando pela rua com cartolina na mão, até porque eu sou egoísta e nessa hora estou colocando minha filha acima do "bem comum"; não quero correr o risco de morrer numa manifestação e deixa-la órfã aos sete anos de idade. Se for hipócrita, devo ser... Mas acho que escrever e expressar opinião, mesmo que escrita, talvez valha algo. Talvez mais pessoas se identifiquem comigo e ponham-se a pensar suas próprias idéias...



Por que abandonei o magistério, vamos lá... Primeiro lugar pelo salário, que é péssimo, especialmente se compararmos com os gastos que um professor teve em toda sua vida para sua formação, que deve ser contínua. Já viu os preços dos livros de arte? Depois porque o caos na educação reflete bem o retrato da sociedade que formamos ao longo das últimas décadas. Na década de 90 eu comprei giz para lousa com dinheiro do meu salário porque na escola estadual "faltou giz". Depois fiquei limitada, cega pelo cansaço, rouquidão, ansiedade e insônia então passei um bom tempo culpando "os alunos" - "ah, porque eles não respeitam o professor, não prestam atenção em nada, nada lhes interessa muito menos Arte, etc."


E me sentia vencida pelas músicas de péssima qualidade que eles traziam para sala de aula, pelas bobagens que eles diziam, por essa cultura da supervalorização do sexo onde quem seduz mais é melhor e mais valorizado pelos demais. Nas escolas, quem tem melhores roupas, tênis, celulares, eletrônicos são o mais popular, junto com o número de experiências sexuais. Perdi a fé na educação, eu não conseguia "fazer a diferença" no ambiente escolar. Sentia-me mais uma no meio do nada.


Mas paralelamente a tudo isso a internet surgiu na minha vida, infelizmente eu tive acesso à um computador bem atrasada em relação aos demais, comprei minha primeira máquina no ano 2000 e não imaginava o que o Google faria com a minha vida até então.


E como a maioria dos brasileiros, meu contato com a internet foi priorizando as redes sociais onde pude me fartar de cultura inútil diariamente... Tirinhas irônicas, indiretas que lavam a alma dos que se sentem rejeitados, campanhas humorísticas etc... Só depois descobri os museus virtuais, livros para download, blogs, cursos on line, shows para assistir entre tanta coisa boa que a internet proporciona.


Mas hoje... Hoje reflito sobre o impacto disso tudo na vida do Brasil. O impacto das redes sociais sobre a organização dos movimentos de tantos "ismos" e "tins e bens e tais"...As ruas estão lotadas de manifestantes em todo o país, a polícia é vilã e heroína simultaneamente, os manifestantes hora são meliantes, hora são guerreiros contra a corrupção, meus amigos estão ansiosos e muitos sem saber o que pensar, como formar opinião própria.



O estopim de toda a história foi o aumento das passagens no transporte público, mas poderia ter sido qualquer outro mote. Eu realmente acredito que o brasileiro precisa gritar, ele sabe que é hora do basta. Mas ele está despreparado, estamos despreparados para tudo isso... Sabemos que precisamos revolucionar, mas não sabemos como é que se faz isso. Claro que tudo começa no grito, na ida pra rua, nas faixas, cartolinas, posts na rede, mas até quando vamos ficar só na base do "curtir e compartilhar", "curtir e compartilhar"? 

Se olharmos para a história das sociedades, entendemos que não adianta ficar procurando um culpado, já é entendido que a culpa não é da direita e nem da esquerda (somente), não tem a ver com Impeachment, não tem a ver com comunismo, anarquismo, ditadura, reacionários ou revolucionários... Nossos problemas estão muito além disso. É tão mais complexo. O brasileiro hoje entende que precisa mudar o país. Mas se recusa a mudar a si próprio.

O brasileiro não quer abandonar o "jeitinho brasileiro", a maioria não recusa o troco dado a mais, a paquera solta debaixo do nariz do companheiro, o "favor" que o colega influente pode te oferecer, o imposto que pode sonegar, os produtos pirateados, (sim eu tenho filmes pirata e baixo mp3 na internet). A gente precisa mudar tanta coisa DENTRO DA GENTE, pra conseguir ganhar essa guerra. É uma mudança MORAL E CÍVICA. 

O brasileiro ainda se esconde atrás da sua religião e aí não forma opinião própria, opta por justificar suas escolhas seguindo dogmas e preceitos religiosos sem sequer questionar seus fundamentos. A religião tem sido o ópio do povo sim, proliferam "religiões" e "seitas" que tentam se infiltrar nos partidos, líderes religiosos buscando cargos políticos visando benefícios pessoais e manipulação de massa. 

O brasileiro está percebendo quem é e está com vergonha disso.

O povo se rebela nas ruas, mas eu não tenho a certeza de que todos ali sabem o que estão fazendo. Claro que sou a favor das manifestações, mas eu sinto muito não termos um líder social, não termos apoio público de artistas politizados e influentes, como nas revoluções dos anos 60. Agora o que temos é a internet para divulgar idéias, mas o debate está longe de ser amplo e profundo, porque ficamos apenas no "curtir e compartilhar" frases feitas, frases "de efeito", cartazes de power point. Ajuda? Ajuda. Mas falta o diálogo entre as pessoas, quando se ouve conversas em bares e mercados é sempre tão superficial, quando o assunto sai na mesa do restaurante, acaba virando piada e pasme, hoje eu vi foto de gente no Facebook fazendo pose fashion na foto que tirou no meio da passeata, ainda com hastag #ogiganteacordou... 

Sim, acordou e fez duck face pra câmera! Os diálogos que vejo por aí, são sempre tão vazios, tão pobres e rasos que dá pena de ver tanta paixão, peitos tão inflamados desperdiçados pela falta de cultura. Falta de cultura essa que não é culpa nossa, é fruto de décadas de desprezo para com incentivos à cultura, educação e comida no prato do brasileiro. Décadas onde os partidos políticos não se preocuparam com os jovens, não se preocuparam em contar-lhes suas histórias, origens...

O livro no Brasil custa caro, e o brasileiro não lê. Aliás, talvez ele até leia, mas sempre que vejo livros sendo lidos nos ônibus, consultórios, são livros religiosos, ficção malfeita ou de filosofia barata. Tem tanta coisa que eu ainda não li, tanta coisa que ainda não aprendi sobre política, sobre o mundo, sobre tudo que já foi escrito. 

Eu acredito que devemos nos preparar melhor, a escola, os partidos, os lares, precisam conversar sobre política, há anos temos evitado esse assunto com a (outra) frase feita "sobre política, religião e gosto eu não discuto", mas deveríamos. Como surgiu cada partido que temos hoje em dia? Quem fundou? Quais são suas histórias, interesses, quais são as bases? Precisamos incluir educação política no nosso dia a dia, precisamos discutir idéias com nossos cônjuges, com nossos amigos, vizinhos. Na internet. Mas não "curtindo e compartilhando" apenas. Temos que falar, expor nossa opinião. Quem pode e vai pra rua, por favor, vá, mas dialogue com as pessoas, converse com elas sobre o que você pensa e acredita, mas não pense que só é manifestante quem vai pra rua com cartolina e rosto pintado. Tem muito desocupado lá também. E tem muita gente articulada, conversando e preparando território para o futuro, fora das ruas. Deixe claro sua opinião, escreva, divulgue, coloque faixas na rua, escreva na camiseta, mas que seja a SUA opinião e não um mero eco do que você ouve e lê por aí. A mídia já se encarrega de divulgar muita mentira desde sempre, então não pense que o facebook não é manipulável, é uma boa amostra do que anda sendo dito por aí, mas não é o todo do pensamento brasileiro.




***


PEQUENAS CONSTATAÇÕES:

- É inadmissível Feliciano e seu "currículo" profissional presidir qualquer coisa, termos governantes "ficha suja", ter no poder qualquer pessoa contra a qual tenhamos qualquer prova de desonestidade, impossível termos tantos impostos desviados para o benefício de uma minoria burguesa que enriquece de forma galopante desde sempre.

- São nojentos esses burguesinhos de merda querendo que parem as manifestações, porque "vandalismo não!" Me poupe, manifestação é uma coisa, se há vandalismo acontecendo simultaneamente é porque há desordem e falta de organização do próprio movimento. É o que digo, não temos líderes para esta revolução. Gente o juíz Barbosa fica lá na sala dele na hora em que o couro come nas ruas. Ele não foi pra rua gritar nada ainda.
- A Dilma e o PT não são os culpados de tudo, eles são PARTE do que tem se formado há muitas décadas, somos os filhos da revolução de 68, sim, somos os filhos das Diretas Já, sim, mas depois do direito ao voto amplo e irrestrito perdemos o rumo das coisas. Temos o direito de votar, mas não temos educação, é um flagelo nosso, portanto, não poderíamos esperar resultados melhores mesmo.

-Já deu pra perceber que temos que mudar. E não é porque eu sou professora formada (e desiludida) que vou puxar a brasa para a minha sardinha, mas gente, A BASE DE TUDO É A EDUCAÇÃO. Quem não estuda, não sabe votar, não sabe se expressar, não sabe escolher nada! Vira indivíduo manipulável à mercê de toda e qualquer manobra da mídia ou partidária. 

- Vamos ler e pesquisar sobre a verdade das coisas, não acredite em tudo que vê impresso, ou vê na TV, ou "curtiu e compartilhou".
- Movimento gay, feminista, indígena, sem terra, qualquer movimento é merecedor de respeito, cada um tem o direito de lutar pelo que acredita, se houve um levante de determinada camada da sociedade é porque está havendo alguma forma de opressão e nenhuma forma de opressão deve ser tolerada.

- Aproveite a onda de politização generalizada e pesquise sobre os tipos de governo, sobre as revoluções, sobre os motivos das principais guerras mundiais. Ah, não esqueça de pesquisar o porquê estão usando a máscara do "Guy Fawkes"nas manifestações. 

- Deixando claro que a meu ver, usar máscara em protesto é o mesmo que enviar bilhete anônimo, usar camiseta pra cobrir o rosto nem sempre é para se proteger do gás lacrimogênio. 

- Uma sugestão para melhorar o Brasil: melhore a si mesmo, melhore a escola do seu filho, melhore o seu bairro, melhore o que você puder melhorar, contribua e não apenas aponte o dedo. Não concorda com algo no seu trabalho? Diga, manifeste-se. Proponha a mudança no seu microcosmo. Ah, e se puder seja uma pessoa digna, com algum conteúdo proveitoso, para que levem a sério quando você abrir a boca pra reclamar. Porque fica difícil levar a sério coisa do tipo "a canção de protesto do Latino" (céus, quero morrer).


- Eu não sei o caminho que o Brasil deve seguir, não sei o rumo que vão tomar as paralisações, mas tenho certeza de que muita coisa ainda pode ser feita.

- Ah, em tempo, toda vez em que ouço na TV falarem "a polícia usou 'bombas de efeito moral'“ eu penso... o que pretende essas bombas? Querem ensinar algo? (Algo do tipo, moral da história: "calem a boca senão o pau vai comer"?) querem moralizar o povo? (Então joguem as bombas em Brasília para que haja mais ética no governo)... "bombas de efeito moral"... isso é um absurdo.

E pra terminar, tenho passado muitos dias relembrando canções de protesto, mas até agora não encontrei nenhuma que se encaixe tão bem com meu ponto de vista...


Não Fosse O Cabral


Tudo aqui me falta
A taxa é muito alta
Dane-se quem não gostar...

Miséria é supérfluo
O resto é que tá certo
Assovia que é prá disfarçar...

Falta de cultura
Ninguém chega à sua altura
Oh Deus!
Não fosse o Cabral...

Por fora é só filó
Dentro é mulambo só
E o Cristo já não güenta mais
Cheira fecaloma
E canta La Paloma
Deixa meu nariz em paz...

Falta de cultura
Ninguém chega à sua altura
Oh Deus!
Não fosse o Cabral...

E dá-lhe ignorância
Em toda circunstância
Não tenho de que me orgulhar
Nós não temos história
É uma vida sem vitórias
Eu duvido que isso vai mudar...

Falta de cultura
Prá cuspir na estrutura
Falta de cultura
Prá cuspir na estrutura
Falta de cultura
Prá cuspir na estrutura
E que culpa tem Cabral?...