domingo, 2 de dezembro de 2012

Haverá?




Esta semana gastei umas boas horas pensando no que me acontece que me faz assim tão desconfortável com minha respiração, com meus pensamentos...

Eu tive uma crise fortíssima ainda não sei de quê, pois farei exames apenas na próxima quarta-feira, meu ouvido direito vibrava por dentro, como uma farfalhar de mariposa. O ouvido parecia ter um inseto dentro e num primeiro momento pensei nisso mesmo e procurei fazer uma limpeza mais minuciosa com óleo para higiene de bebês, cotonetes, mas nada aliviava e percebi ser mais interno do que apenas "orelhas"...

Essa crise me impedia de permanecer concentrada no meu trabalho matutino, o computador parecia arredondado, os números se confundiam na minha mente, todo o qualquer barulho me incomodava e até comprar alimentos no supermercado ficou muito difícil porque primeiro eu precisava alcançar os objetos mais baixos, segundo porque eu não suportava o trepidar do carrinho de compras...

Eu gosto de dar as coisas uma importância maior do que talvez elas mereçam, mesmo as pequenas coisas, porque não gosto da ideia de ter deixado algo escapar-me por desatenção ou insensibilidade... E reparei mais uma vez, como entre tantas outras vezes em que penso nisso, na insignificância do meu ser. 

Pra ajudar nisso tudo, estava terminando a leitura do livro "Leite Derramado" do Chico Buarque, de leitura complexa, não é um livro fácil de acompanhar embora os "cultos" de plantão vão dizer que eu que sou limitada e não captei o "todo" da viagem do Chico, mas confesso que precisei reler algumas folhas para prosseguir até o fim. E fiquei a pensar que realmente a espécie humana é dividia em muitos e muitos níveis mentais... não sei a palavra correta. Mas é inquestionável a superioridade de algumas pessoas em termos de ideias, criação e maestria.

A minha casa sempre foi repleta de livros, papel e conversas. Meu pai se encarregou disso, minha mãe embarcou nessa com ele e eu fui na carona. Virei uma pessoa que se emociona facilmente, com uma boa leitura, um show, um desenho, uma história bem contada... Eu me coloco muito rapidamente no lugar do outro e quando percebo estou sentindo a dor dele e sofrendo junto o que faz com que assistir à um filme eu possa sair dele mais leve, rindo ou depressiva e muito mais preocupada ainda se for um biográfico, rs*

Também sou bastante dispersa, o que já fez com que você notasse que eu quase me perdi do mote que me trouxe aqui que foi a sensação de estar ficando ou surda, ou perturbada permanentemente por algo estranho ao qual eu não tenho controle. Observar o mundo sob essa ótica me fez pensar no quanto somos realmente passageiros, na doença que pode estar nos consumindo em silêncio, nas pessoas que se consomem em silêncio, na dor de quem assiste a dor em silêncio...  
No desperdício que é tanta vida jogada fora com gente medíocre, que tem saúde, mas não a usa pra nada, ou gente que só pensa em si próprio, gente que só enxerga as suas próprias dores. Gente que vive somente para trabalhar, se divertir, comer e dormir. 

Eu sofro de uma urgência da qual não consigo me livrar, eu sempre penso que estou fazendo pouco, fazendo pouquíssimo, e dentro desse pouco, faço-o de forma mediana. Isso, em algumas épocas me atormenta incessantemente. Eu sofro de insônia, tenho dores de cabeça constantes, meu corpo dói bastante e tem dias em que penso que é provável que eu não dure muito mesmo, então, tenho que fazer o que preciso logo. Mas não consigo. Não tenho recursos para tanto. O que eu gostaria é maior do que eu sou. E não que eu não tente. Mas não encontro caminhos para penetrar nas pessoas como gostaria.

Quem me conhece sabe que eu faço minhas tentativas, eu tenho as portas do meu lar abertas, crio momentos para encontros de amigos e reflexões, abro debates sempre que posso, adoro conversar sobre tudo quando encontro portas igualmente abertas. Mas quando estou sozinha, em silêncio, fico pensando no que temos de "ideias" hoje em dia?

Será que tem alguém querendo transformar o mundo? Ou pelo menos o "seu" micro-mundo? O que temos hoje em dia é um desinteresse tão grande por coisas mais profundas, como se as pessoas tivessem medo de conversar sobre o que carregam de mais secreto dentro de si. É uma ditadura da felicidade/infelicidade que a sociedade tem criado através das redes sociais. Onde encontramos de tudo, eu vejo pelo meu Facebook, onde compartilhamos todo tipo de emoção, experiências religiosas, piadas, trechos de livros, notícias importantes, notícias medíocres, fotos, pensamentos íntimos, mas tudo, tudo tem uma aura de "por favor, vamos encontrar algo que nos envolva realmente?"

Alguns postam fotos, citações, comentários como quem tenta convencer a si próprio de que está "tudo bem", "tudo sob controle". A sensação de "estou fazendo a minha parte" atinge níveis ainda maiores quando se repassa alguma mensagem de auto-ajuda, ou campanha contra algo politicamente incorreto, ou corrupto ou sei lá o quê. 

Eu leio sobre grandes pensadores, grandes artistas, gente que fez algo que marcou e mudou uma época, uma geração inteira porque abraçou alguma ideia que já estava no ar... Tudo que existe já existia, só que alguém mais sensível, "antenado" captou e conseguiu traduzir para um grande número de pessoas. Sei que são tolices óbvias mas eu fico pensando que se hoje não temos nada muito "significativo". 

Em cada década a juventude teve a sensibilidade de captar algo à que se devotar, fosse a luta de classes, a semente do socialismo, movimentos político-sociais-musicais, e tivemos os hippies, punks, tropicália, rock n' roll, o rap, a denúncia, a arte de subúrbio entre tantas manifestações de qualidade... A época do culto aos esportistas nacionais, e hoje?

Eu sinto um abandono mental generalizado, tudo que ouço os jovens comentando na internet é relacionado à droga, bebida e coisas que sempre existiram, mas na verdade droga e bebida não são mais elementos da contra-cultura. O adolescente que gosta de estampar suas "transgressões" não assusta mais à ninguém. Pelo menos não a mim... o que me assustaria hoje, seria algo efetivo para a evolução do "pensar coletivo". Essa semana eu pensei o que seria da atualidade se Raul Seixas, Albert Einsten,  tivesse tido internet por exemplo? E pro mal também, o que teria sido da humanidade se Hitler tivesse usado a internet para convencimento mundial? 

E será que não estamos também comprando ideias e conceitos a todo momento na internet? Claro que sim, cada bobagem compartilhada, cada foto, cada "must have" que você cita, cada pequena peça que usamos nessa construção da nossa cultura atual refletirá para os vindouros o que somos hoje. Ou o que estamos tentando ser.

Eu tenho uma coleção de fotos de coisas que jamais terei mas que gosto de ver, pinturas, roupas, conceitos, obras de arte, pessoas, desejos, sonhos e lugares que jamais serão verdade. Mas são reais na pasta de arquivos. Vivemos onde? vivemos o quê?

Eu observo a mim mesma e pra buscar algum sentido aos meus pensamentos, me agarro à diversas formas de pensamento e "algum remédio que me dê alegria", mas se eu pensar, tudo que tomo emprestado para me traduzir também não sou eu. Será que sou o que prego, o que penso? Será que realmente me pareço com meus pensamentos? Minhas atitudes refletem o que eu penso ser?
Será que consigo me expressar de formar adequada e fazer com que entendam realmente o que eu quero dizer? 

Será que terei tempo de viver tudo que preciso ser? Eu acho mesmo uma pena que meu corpo não possa acompanhar minhas idéias, eu sinto minha saúde piorando e vejo que tenho tanto a fazer... e sei que nunca farei nem metade do que vislumbro... mas eu tento e parece uma luta tão desigual.

Eu preciso encontrar minha carapuça, porque religião, boemia, música, arte, animais abandonados, violência, educação, saúde, sexo, política, todas essas roupagens não andam me servindo, nem tão pouco me consolando, não me atraem mais. 

Mas não é depressão. É desassossego. É inquietude. É um passar mal por ser quem se é, não suportar sequer imaginar o quanto medíocre eu possa ser e não ter bagagem para transformar isso. 

Eu me sinto mal em querer mudar a vida de quem está ao meu redor, porque antes disso preciso saber quem eu sou. Eu sempre consigo transformar a minha vida, mas sempre sem entender se o que faço é o melhor que poderia ter feito ou não. 

Eu estou em busca do melhor de mim. Mas morro de medo de que não haja.







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