domingo, 6 de fevereiro de 2011

Arte contemporanea versus arte acadêmica. Versus?



















Os questionamentos em torno da arte contemporânea e seus valores são bastante comuns no meio  artístico, mas para ilustrar melhor nossa reflexão eu proponho que retomemos princípios básicos para a nossa discussão.

O que é arte? A arte é antes de tudo uma linguagem, o homem, desde os tempos primitivos se apropriou dos materiais a sua volta, criou outros e transcreveu o mundo ao seu redor conforme sua sensibilidade e modo de observar o que lhe cerca. A arte  durante muito tempo se prestou a diversos fins; religiosos, históricos, políticos, filosóficos, lazer, mas sempre com sua carga de linguagem e termômetro da sociedade de sua época. É, acima de tudo, uma forma de expressão pessoal que nem sempre está vinculada a indústria da arte ou comércio.

É comum hoje em dia encontramos pessoas se questionando sobre o significado e motivações da arte contemporânea. Frases do tipo: "Isso até eu faço", "Meu filho desenha melhor do que isso!" etc. Mas se formos associar as escolas artísticas com o tempo político-social em que surgiram, comprova-se mais uma vez a tese de que a arte reflete a sociedade de uma época, seu produto intelectual, angústias e valores.
O que foi o academicismo? O academicismo, foi uma escola que valorizava a técnica, o domínio do material, o virtuosismo.
 "O academicismo artístico iniciou na fase do período neoclássico, absorvendo estéticas românticas, realistas e simbolistas.  O Academiscimo no Brasil possuía laço com o poder político da época, possibilitando uma postura não somente de ensino no campo das artes, mas de movimento filosófico e de ato político.O academicismo deixou heranças que sobreviveram às transformações provocadas pelo modernismo no início do século XX.  O conceito real de academia de arte surgiu no fim do Renascimento, antes desse período, as produções artísticas dependiam do trabalho de artesãos e de ateliês coletivos, conhecidos como guildas. Antes da Vinda da Família Real, a arte no Brasil era ensinada de maneira informal, nos ateliês dos próprios artistas que passavam seus conhecimentos e experiências a seus alunos. Havia apenas uma pequena escola, a Aula Régia de Desenho e Figura, fundada no Rio de Janeiro em 1800." (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Academismo_no_Brasil)

Ou seja, o academicismo emprestava sua técnica e virtuosismo à situação política, às idéias da época. E serviu como registro histórico, como no início da nossa história, relatando posses e terras dos poderosos, retratos "majestosos" de senhores feudais  e por aí afora...

Mas vamos então, dar um salto gigantesco até 1920, início do modernismo no Brasil, o modernismo no Brasil é a absorção de diversas influências do que estava acontecendo nas vanguardas européias, primava pela liberdade de estilo, liberdade de linguagem. A poesia por exemplo, tinha a intenção de se tornar cada vez mais parecida com a linguagem falada.

E na pintura,  artistas  que até então desenhavam e pintavam academicamente, começam a partir para liberdades maiores, perspectivas e cores novas, luzes inéditas, contrastes e substituições de cores, liberdade de temas e assim por diante.

Agora porque falei tudo isso pra chegar na nossa questão?

Porque tudo que acontece na nossa arte hoje, 2011, é fruto do que se passou anteriormente, claro, mas o ponto fundamental da arte, a base de tudo é a mesma coisa: a arte reflete a época em que vivemos. E como negar que hoje vivemos num mundo de desconstrução? Desconstrução e destruição (que são coisas diferentes, note) portanto, isso vai refletir na produção artística de uma época e seu povo. Se hoje a gente encontra manifestações artísticas que não se parecem com os velhos aconceitos de arte é porque também temos fatos e características antropologicas atuais que ainda não sabemos como lidar. O mundo está mudando muito rápido e não conseguimos ainda entender o sentido, para onde estamos caminhando. E isso também não importa, porque de certo modo não conseguiremos detê-lo, apenas nos moldar ao novo tempo e tentar melhora-lo.

Eu sou adepta das duas linguagens artísticas, gosto e faço desenho acadêmico e gosto e faço pintura contemporânea, é  como se eu falasse dois idiomas. E não significa que uma arte seja melhor ou pior do que outra, apenas se prestam à funções diferentes. E por sermos seres múltiplos e por conta da tecnologia, globalização e evolução enquanto espécie mesmo, é comum a experimentação. Como tantas outras coisas foram experimentadas e abandonadas ao longo da nossa história... modos de se pensar a Terra, as máquinas, as organizações sociais... Eu acho que é muito importante que exista essa "arte polêmica", essa coisa do grão de arroz pregado na parede, instalações no sense, "estrambolicismos" porque nós também somos assim. A nossa sociedade "também" é assim. Claro que tem coisas que são pura farsa comercial, mas mesmo estas também refletem o que temos hoje no nosso mundo, consumismo, oportunismo, caos interno, tudo, tudo isso reflete o que estamos nos tornando. Nem melhores, nem piores, mas diferentes do passado, sempre. A arte está caótica porque estamos nos tornando caóticos também. E eu ainda não sei se isso é totalmente mau. Porque pode ser que seja apenas uma nova maneira de "ser humano".  Como lidar com nossos conflitos, dramas, mazelas?

O que se faz hoje em galerias, salões é tentar encontrar algo novo, creio que um produto mesmo, que seja comercial, que seja polêmico que vôe e faça café simultaneamente, de preferência... Mas eu acredito que não se deve olhar para o tema como se a arte contemporânea fosse uma substituição da arte anterior, mas sim como espelhos paralelos,  coexistentes dentro de uma sociedade tão múltipla, tão diversa...

E se partirmos do princípio de que a vanguarda sempre contesta a situação, também não vejo estranhamento algum quando temos agora uma classe artística dividida entre a arte "no sense" e a contestação disso tudo. Contestar essa arte nova, essa arte que muitas vezes não parece arte, contestar o porquê disso tudo, mesmo que nos traga de volta ao passado, pode ser muito moderno também.

Mas para concluir esse nosso assunto, quero ressaltar um detalhe importantíssimo dentro desse contexto todo de "o que é arte" ou "não arte", seja lá o que o artista se propuser a fazer, que faça bem feito. Ainda não inventaram nada melhor para se destacar, porém se "manter" vivo e atual do que o domínio do material, o virtuosismo naquilo a que se propõe a fazer. Causar impacto, ficar conhecido, chocar, hoje em dia não é nada fácil, tendo em vista a exposição diária de velhas novidades, coisas que se fazem há muito tempo (o que era a Factory de Warhol se não uma espécie de BBB? Ou seja nada é tão "novo" assim) coisas efêmeras que acordam verdade e adormecem mentira, num mesmo dia, porém só se mantém vivo, com fundamento, quando tem bagagem pra isso, quando tem o conforto de dizer "eu sei fazer isto e o faço bem feito". Não importa o que seja, contemporâneo, acadêmico, o que for. Se for fazer, faça bem feito. Para deixar uma marca que sirva de trampolim para os que virão... (Apesar de que, como eu disse anteriormente, mesmo quando a arte é mal feita, ela merece atenção, porque tem um motivo para ela estar assim hoje e estar em voga!)

E isso tudo também explica porque eu não me interesso mais em participar de Salões, Concursos, etc. Eu escolhi um caminho para mim, mas isso já é assunto para outro dia....


Ps: A imagem deste post é uma instalação de Antônio Manuel, 1994.

Nenhum comentário: