quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

2011 – O ano em que eu fiz contato... comigo mesma.



Este ano está terminando diferente de todos os outros... porque eu estou num misto de pavor e êxtase por ter descoberto, mastigado, digerido e solucionado muitas coisas de dentro de mim... algumas velhas conhecidas, outras que nem imaginava serem minhas...
Eu já comecei e recomecei este texto mais de uma vez, porque é muito difícil organizar de forma lógica e compreensível o “todo” que vi e reconheci em mim e no mundo... acho que vou fazer de forma bem técnica para não me perder...

Eu comecei o ano chegando de uma viagem à casa dos meus pais... Meu pai está se recuperando de um AVC ocorrido no início de 2010... Ele ainda se recupera, é um processo lento, que me chocou ao notar o quanto meu pai quer viver... Paralelo a isso eu re-encontrei pessoas do meu passado ... e pude enxerga-las com outros olhos... Ainda via nelas tudo de lindo que sempre achei, mas ao mesmo tempo via que éramos as mesmas pessoas e não. Somos os mesmos. Somos outros. Mas me chocou demais. Eu me senti “roubada” …

Quando voltei pra casa, estava confusa, chorando muito diariamente, pensando nos meus pais que deixei em SP, pensando nos amigos, pensando no passado, minhas referências, todos largados em SP.
Largados não, todos TENDO SUAS VIDAS, independentes do que eu fiz da minha ou não. Quando essa ficha caiu, foi foda. Meus pais, embora velhos e em recuperação, não precisam de mim. Meus amigos não precisam de mim, ninguém “precisa” de mim. Aí olhei pro lado e pensei “Nem minha filha precisa de mim”...
Primeira ficha... ninguém é insubstituível, ninguém é indispensável... Se eu morrer agorinha, minha filha vai crescer, viver e se criar. Com sorte o meu marido não faz muita merda e ela superará... ela pode sentir a minha falta, mas não depende disso para viver. Sacada do momento: Eu sou indispensável apenas a mim mesma. Parece ridículo, mas não é. A única pessoa capaz de lutar pelos meus interesses sou eu mesma. Só eu posso fazer as minhas coisas acontecerem. Eu não posso viver a vida de alguém. Por mais que eu ame alguém e esteja ao seu lado, não estou vivendo “ele” estou vivendo ao lado “dele”.
Aí comecei a ver o quanto alguns ex-amores não eram tão lindos assim. O que tinha restado deles dentro de mim não eram coisas relacionadas à eles propriamente. O que tornava esses amores inesquecíveis e os melhores homens do mundo? Eram as coisas que EU TINHA escolhido guardar sobre eles dentro da minha mente. Eu tinha decidido que fulano era o mais lindo e inteligente, sicrano o mais estável em sua vida, beltrano era o mais talentoso, inteligente e sensível e lindo e etc... Mas será que eram mesmo? Não sei. Mas representavam aquilo, naquela época em que eram amados... As épocas em que eles apareceram eram épocas muito especiais na minha vida, não por eles propriamente, mas pelo que eu tinha e sentia. No início eu era inocente e o amor era novidade... Eu passei quase duas décadas pensando que meu primeiro amor era o ideal para mim. Mas não era por ele em si. É porque no fundo eu queria segurar comigo aquela fase primeira, eu queria tanto não ter perdido aquela inocência que eu tinha... Aquele mundo que eu tinha... e ele nunca chegou a ser meu namorado!
Depois um outro grande amor que marcou demais, era fruto de uma fase ótima também que vivi, acho que a fase em que fui mais bonita, ganhava relativamente bem, morava com meus pais (me sentia segura e sem preocupações) era adorada pelos meus alunos, era coisa de filme mesmo... A escola parava quando eu chegava, as crianças, os jovens, todos me amavam... E eu amava aquilo tudo, claro, a Miss Insegurança precisava mesmo que as crianças dissessem o tempo todo o quanto eu era legal... Mas fui uma boa professora, eu me matava pra levar coisas legais pra sala, queria deixar marcas positivas nas pessoas... Mas guardei essa fase por muito tempo dentro de mim...
Passei por outros relacionamentos que nem vale a pena contar, foram coisas tristes, mas já resolvidas dentro de mim e que penso que apesar do trauma vivido, o pior já passou e não ficaram marcas tão fortes assim, sendo que raramente penso nestas pessoas...
Mas voltando a viagem da qual voltei no inicio deste ano.
Quando voltei pra casa fui pro fundo do poço. Eu ainda estava dando aulas, e não conseguia nem raciocinar... Fevereiro, 2011, as aulas recomeçaram, eu não conseguia nem falar, não tinha vontade de dominar a atenção de 40 adolescentes em situação de risco que, a cada dia, me contavam mais e mais histórias tristes e vexatórias... (Nem vou contar a época em que trabalhei gravida num abrigo do conselho tutelar, onde vc vê de tudo, desde criança violentada pelos familiares, até menores assassinos, crianças vítimas, crianças rés... toda variedade de desgraça social, na escola de samba, na outra ONG, nas escolas públicas...) Me custava muito aceitar que eu estava perdendo essa luta educacional há alguns anos... Minha voz já não era a mesma e todo mês ficava rouca... Fui ao médico fazer uma micro-filmagem, tenho dois calos na garganta... de médio porte... dá-lhe água e repouso... Pra professor? Piada!
E acordar de manhã em 2011 pra ir dar aulas me parecia cada dia mais terrível, mais inútil, mais sem propósito... Não tinha mais tesão em ensinar nada... muito menos de arte. Sensibilizar as pessoas... Como fazer para sensibilizar as pessoas se eu mesma já não sei como sentir, nem o “quê” sentia em estar viva nesta época. Eu sabia como me sentia no passado. Naqueles tempos em que eu me sentia localizada, bem instalada na minha cidade, no meu corpo jovem, etc.
A verdade é que eu me mudei de estado, cidade mas não refiz minha vida. Estou aqui há 9 anos e não construí laços de amizade fortes como os de lá. Já refleti sobre isso sob diferentes aspectos, não sei se por diferenças culturais, por culpa minha, por sei lá o quê, o fato é que não tenho a intensidade de laços que tinha em SP. E toda vez que volto pra SP, noto que meus laços de lá também não existem mais. Nem com meus pais a relação é a mesma, lógico. Meu quarto de filha não existe mais, nenhum móvel da época... tudo sumiu. Os amores, o quarto, as pessoas... As ruas estão diferentes... nada mais era a “minha” São Paulo.
Segunda constatação: Eu tinha saudade de épocas específicas. Não exatamente de lugares ou pessoas...Saudades das coisas que me rodeavam e que me traziam sensações boas, de segurança, de amizade, de amor, enfim, tudo positivo.
Isso tudo me deprimiu e eu engordei 10 quilos. Em poucos meses. Em 5 meses. Me vi feia, cansada, doente, largada... Chata, nervosa, obcecada por um passado morto.
Exorcizei como pude, lendo, escrevendo, cantando, dançando, sonhando, dormindo, acordada noites a fio... fiz e refiz vários caminhos... E fui me perguntando várias coisinhas...

  • Quem sou eu, 5 anos depois de ser mãe?
  • Por que me sinto tão mal?
  • Por que me sinto infeliz?
Aí tomei uma decisão importante e difícil. Abandonei definitivamente o magistério. E numa fase onde trabalhava numa escola ótima, e dava oficinas em outra escola ainda melhor, que me prometia uma cadeira em 2012... Fui trabalhar num local onde não é exigida nenhuma capacitação especial. Fico quieta, na minha mesa, no meu computador alimentando um sistema do Tribunal de Contas. Burocracia. Nunca me senti tão feliz. Trabalho 6hrs por dia, das 7h00m as 13h00m, chego em casa por volta das 14hrs e ainda consigo pintar, desenhar e batalhar por encomendas. E cuidar da minha casa, família e afazeres de mãe.
Alguns meses depois comecei a notar como era muito mais saudável para mim a convivência entre adultos do que ficar cercada e responsável por todas aquelas crianças e adolescentes... Vale citar que há seis anos eu faço tratamento de distimia e ansiedade generalizada. Quando você é professor, torna-se responsável por tudo que aconteça em sala, é muita carga para quem não está conseguindo nem dar conta da sua carga interior. Admiro quem ainda dá aulas... Cuidei de tantas crianças, jovens, durante tantos anos que quando tive minha filha percebi que chegava sempre exausta pra ela. Justamente pra ela, minha filha. Não era o correto. Foi então que percebi que estava no caminho certo. Sair da sala de aula, ter um emprego normal (não sabia fazer mais nada da vida que não fosse relacionado à arte) e conviver com adultos. Isso já mudou minha cabeça...
Depois consegui uma troca de horário, e centralizei meu trabalho na parte da manhã pude olhar pra mim... e me comparar com o resto do mundo. Muitas mulheres se cuidam e se amam mais do que eu amava a mim mesma. Muitas mulheres se cuidam e se amam bem menos do que deveriam.
Eu nunca liguei pra roupas, pra visual, materialismo... Se eu tivesse dinheiro pros meus livros, pra comer, vestir o básico o resto estava certo. Mas de repente, aos 35 anos comecei a me sentir muito velha, muito feia e com a vida desperdiçada e perdida. Sentia meu casamento vazio, e me via apenas como uma mulher que cuida de sua filha, trabalha e desenha. E também tem que estar disponível para o marido. Aí criei uma vida virtual, onde me saía muito melhor porque piloto melhor as palavras do que meu corpo estranho e meu rosto anguloso. Controlo melhor as palavras escritas do que as ditas, na minha expressão sempre ansiosa, sempre atropelando as palavras como se a qualquer momento fosse tocar o sinal do intervalo … Na vida virtual não preciso estar arrumada, bonita nem nada.
Sou filha de pai e avô comunistas, que insistiam em me explicar como funciona o sistema comercial em Cuba, então cresci achando que se eu tivesse dois tênis (um no pé, outro lavando) uma jaqueta forte pro inverno, poucas coisas e muito conhecimento eu seria alguém de valor.
No outro extremo, tenho minha mãe que foi uma moça lindíssima. Sempre tive uma relação complicada com minha mãe e como embate resolvi me transformar na “anti-miss”, só usava roupa barata, coturno, até blusa de saco de batata eu comprava. (alguém lembra daquelas batas de saco de batata que tinha na praça da república, em SP, com temas de Led Zeppelin, Janis etc?) Isso foi me marcando ano após ano. Paralelo a isso cresci com minha mãe falando que por eu ser tão errada, mal arrumada e tudo de ruim no mundo, eu realmente só merecia coisas ruíns, pequenas. E quando a situação afetiva estava bem, ela e meu pai compravam muitos doces e enchiam a casa de coisas gostosas. Comida na casa dos meus pais é afeto. Ultimamente, quando viajo pra lá, noto a quantidade de comida que eles consomem. Consomem frutas, verduras, tudo que é bom, mas em seguida ainda tem espaço pra bolo, chocolate, biscoitos, sobremesas... não tem quantidade, nem horário. Eu mesma quando vou lá, agora que tenho minha casa e meus hábitos, penso sempre o quanto eles exageram. O quanto eu exagerava junto com eles!!!
Claro que cresceu uma mulher gordinha, insegura, escondida numa casca de roupas simples, pretas, preocupada em provar pro mundo que não era nem um pouco parecida com as mulheres que eu abominava. Eu tinha um preconceito natural com mulheres que se arrumavam, que eram bonitas, que se amavam... Pra mim era tudo fútil, vazia. Eu que não gostava que rotulassem pessoas, fazia isso com essas mulheres.
Hoje vejo que com minha doença, criei uma capa de gordura e roupas largas e pretas que me esconde do olhar externo, me esconde do que sou. E aliás, quem sou? Em 1998, encontrei a dança do ventre. Ela abria uma brecha para eu ser um pouco mulher, aquela que eu reprimia 24 horas por dia. Mas criando a personagem dançarina, ficava mais fácil olhar o “eu-mulher” porque ela só durava uns 15 minutos, uma hora, o tempo de uma apresentação. Aí corria pros meus jeans velhos e all star desbotado.
Os homens e minhas amigas sempre dizem que sou bonita. Mas porque então eu preciso me esconder? Eu me escondo do quê, de quem? E comecei este ano a refletir sobre tudo que me incomoda na minha vida a começar então pelo meu peso iô-iô. A primeira vez que me pesei na vida eu tinha 20 anos, não me lembro de ter me pesado antes disso. Eu subi na balança ao lado de um namoradinho que eu tinha. Ele pesou 72 e eu pesei 76 quilos. Fiquei assustada, eu pesava mais do que um homem alto. Não sei o que me deu, comprei uma esteira, fiz dieta e em 4 meses eu pesava 58, 60 quilos... Fiquei ótima e curti um monte esse peso novo. Comprava roupas legais e me sentia a vontade. Então, agora com 35 anos era preciso fazer algo. Porque nesse meio tempo eu oscilei sempre entre 58 à 78 quilos, colocando uma gestação no meio! E agora, aos 35 anos eu estava com 78 quilos, assustada. Pensando que meu caminho estava na reta final mesmo,.. Já pensou nisso? Que bobagem!
Aí parei de achar que a minha felicidade estaria nas mãos do meu marido, da minha filha, das minhas amizades... Quando me enxerguei estava num universo particular de auto-análise profunda, sobre todos os assuntos que me norteiam.

Religião: Eu passei por tantas, tantas... Mas o no quê creio exatamente? Eu creio muito mais na ciência do que nos dogmas que conheci por aí... Eu sinto e entendo que existe algo que não compreendo. Mas não sei se é algo religioso. Não sei se é uma força com nome. E reparei que não me preocupo mais com isso. Percebi que minha religião é apenas me concentrar em ser alguém de quem minha filha sinta orgulho, alguém que eu olhe e goste pelas atitudes, modos e ideais. É ser alguém que não envergonha seus pais e amigos. Quanto às minhas experiências extra-sensoriais, defino apenas como mistérios da vida terrestre que eu, nem ninguém tem conhecimento para denominar..

Casamento: Parei de ficar vivendo de lembranças de ficar comparando o que se foi com o que vivo hoje. Pensando em como viver uma felicidade indestrutível, porque a felicidade não é um estado permanente, é cíclica e precisa de momentos pesados e difíceis porque faz parte da felicidade te mostrar o quanto vc se supera e é forte. Quando olhei pra dentro de mim e vi essa mulher limitada, cheia de defeitos mas também bonita, forte e com qualidades boas, percebi que todos nós somos iguais. Todos que conheço, todos que conheci são exatamente como eu. Possuem qualidades ótimas e defeitos pesados. Então tudo vai depender do que vou exaltar em mim, do que vou exaltar nos outros. Claro que existem pessoas que não conseguimos ver o lado bom em primeiro plano, por inúmeros motivos, mas a maioria das pessoas que me cercam são em sua maior parte, boas.

Amizades: Esse departamento eu tenho muita dificuldade. Sempre fui pessoa de ter muitos colegas e uns poucos amigos. Somos todos assim. Mas depois que mudei de SP para SC isso ficou mais evidente. Aqui fiz poucos amigos íntimos, um ou dois... Mas aí me peguei pensando, mas hoje, com internet e tudo mais... Será que eu não tenho mesmo amigos íntimos? Todos temos essa carência de viver em sociedade, de pertencer a um grupo. O ideal é que vc viva em sociedade com contato físico, possa abraçar, rir, comer junto com seus amigos frequentemente. Mas tanta coisa é “o ideal”... O que é “o ideal”? Pra mim é o que tenho, é meu bem mais valioso, meus amigos de internet. E podem dizer que isso é errado, podem julgar, podem dizer o que quiserem. Aqui tenho pessoas em que, com os anos, aprendi a confiar e atraí as pessoas certas. As pessoas certas pra mim, ficaram. Eu encontrei a minha maneira de suprir essa parcela de amor. Eu amo essas pessoas. Eu tenho sim amigos. A internet me deu isso. E não venha ninguém me dizer que tem menos valor por ser virtual, não é! Não é porque são pessoas, tão ou mais humanas do que as que me cumprimentam diariamente e automaticamente. Elas não me procuram na internet automaticamente, porque é hábito, ou por outro motivo. Me procuram (e eu procuro a elas) por vontade de estar junto, de conversar, de mostrar algo. Porque quando estamos cansados, damos espaço para nós mesmos e não procuramos. É mais sincero do que um bom dia forçado.

Maternidade: Quando a Helena nasceu, ela era tudo. E só tinha espaço pra ela na minha vida. Eu abandonei a mim mesma, ao meu marido, abandonei a dança do ventre, abandonei meu emprego. Não penso se foi certo ou errado. Acho que foi certo, ela precisava muito de mim nos primeiros anos. Mas hoje ela tem 5 anos, vai pro 1º ano do fundamental, gosta de ir pra escola, me conta sobre seu dia, me conta sobre suas idéias, seus gostos e opiniões. Com cinco anos. Ela pensa no futuro dela, o que vai comer amanhã, do que vai brincar, onde quer ir. E percebi que eu não fazia mais isso comigo. Não pensava em nenhum amanhã. Nem do que queria brincar amanhã, nem onde queria ir.
Notei que estava apenas vivendo. Olhando no relógio e pensando “bem, são tantas horas, é hora de fazer comida, hora de ir trabalhar, hora de voltar pra casa, hora de buscar Helena, hora de dormir” Eu não tinha mais sonhos, nem planos. Isso me chocou também. Hoje busco um equilíbrio para nós duas. Eu a vivo intensamente, porque ela é sim, TUDO PRA MIM, mas eu também forço a minha barra para ter um espaço pra mim. Pros meus interesses. Inventei sonhos novos. Sonhos possíveis. Numa escala de possibilidades reais.

Arte: Hoje tenho certeza de que não quero mais concursos, salões de arte, galerias, nada disso. Porque é tudo comércio. Eu adoro vender, claro. Mas adoro vender para quem gosta do que eu crio livremente, não quero pintar pensando se vão comprar ou não enquanto pinto. Hoje sou livre e pinto como quero, não participo mais de concursos, não quero ter minha arte “medida”... Medida na escala de quem? Comparativo com o quê? O mundo tem tabelas demais pra eu comparar e seguir. Seguir?

Dança do Ventre: Quando eu ouvia falar em Dança do Ventre, antes de 1998, eu pensava “Cruzes, aquele bando de mulher pelada rebolando:? Tô fora. Foi tentando conseguir uma professora de dança flamenca que descobri a DV, porque segundo a profa de Flamenco, com meus problemas de joelho, não seria legal ficar com ela... Que a DV fortaleceria minhas pernas e joelhos... Duvidei muito e quis correr pra casa. Ela foi tão educada comigo, e me guiou até a porta da outra sala. A profa tbm era muito querida e fiquei com vergonha de virar as costas e ir embora. Assisti a primeira aula e nunca mais tirei a DV da minha vida... ela sempre esteve lá... horas muito gritante, horas dormente. Mas sempre por perto... Depois comecei a me achar velha e ridicula pra dança. Pensei por muito tempo que era o fim. Mas minhas amigas (aquelas, virtuais...) não deixaram. Sempre me incentivam... e eu estou de volta... timidamente, mas estou.

Eu e meu espelho: porque eu e minha mente, eu e minha cultura eu consigo alimentar facilmente, tenho o habito de ler de tudo, quero aprender tudo... Mas porque aquela pessoa, no espelho não se parecia comigo? Era 2011 e eu estava gorda, feia, com cara de cansada, olheiras das minhas insônias constantes.
Me peguei, nem sei como isso começou exatamente, mas me peguei pensando no quanto eu me escondo. Fui ao médico, ele me recomendou o retorno do tratamento da distimia e da ansiedade. Sempre fui contra remédios, mas é inegável como eu sou uma pessoa melhor medicada. E resolvi finalmente fazer mais uma dieta. Mas não uma dieta. Percebi que por motivos psicológicos eu comia. Comia por carência, por não ter prazer em outra coisa na vida... Comia para acompanhar o grupo. Comia por tudo, menos por fome. Quando comecei a comer de 3 em 3 horas, e muita fruta, e muita água, comecei a ver meu corpo responder. E hoje 4 meses depois estou começando a colher esses frutos. Eu era dependente de açúcar. Comia pelo menos 3 ou 4 doces por dia. Entre biscoitos, chocolates e bolos. E resolvi me encarar como um viciado em alguma substância grave. Eu não fumo, nem bebo, nem uso drogas ilícitas. Eu uso os remédios. Mas não tenho mais vergonha disso. Acordo as 5h00 todos os dias, como bem, de 3 em 3 horas, como coisas gostosas, e vez em quando como chocolate amargo ou meio-amargo. Como amêndoas que descobri serem ótimas para minha saúde. Estou conquistando um novo corpo. Estou redescobrindo o prazer de olhar no espelho.
Hoje gostei tanto de mim, que pensei... acho que nunca fui tão bonita quanto hoje. Após ter parido, após ter sofrido um tanto de coisas... Acho que meu corpo é mais bonito, mesmo mais velho. Eu danço melhor hoje, do que quando era menina... Meu rosto é mais bonito porque viu mais coisas... E também porque resolvi me permitir ser bonita. Porque eu não me deixava ser bela? Por algum motivo eu fazia questão de não ficar bonita.
E agora, termino o ano de 2011 assim:
Orgulhosa de mim, porque identifiquei os principais fantasmas de mim, os principais motivos de carências e baixa auto-estima. Orgulhosa de ter assumido de vez quem eu sou, como sou e como quero ser. Feliz por me libertar e por libertar meu passado. Feliz por pensar somente no hoje e um pouco no amanhã. O passado eu guardei num lugar legal e lá deixei.
Orgulhosa por ter recuperado meu peso ideal, por ter voltado à dança, por voltar a me amar. Feliz com minha vida profissional, com minha arte, com meu casamento e com minha filha que é tudo.
Alerta contra minhas auto-sabotagens. Alerta contra as pessoas que me fazem mal, mesmo quando querem fazer bem. Alerta contra o que me atrai e me desvia do foco.
Assumida em minha personalidade nem sempre agradável, mas meu maior tesouro.
Consciente das minhas qualidades, consciente do meu valor enquanto animal pensante. Consciente dos meus piores defeitos e pensando num modo de doma-los...
Pra encerrar, termino o ano mais feliz do que acho que jamais fui. Porque não me iludo, sei que nada mudou a minha volta. Está tudo praticamente igual ao começo deste ano, as coisas não mudaram, quem mudou foi eu. Eu resolvi ver o mundo de modo diferente. Eu resolvi olhar pra mim mesma de modo diferente. Eu resolvi olhar as pessoas a minha volta de modo diferente.

Olhe ao seu redor também, de repente, você se surpreenderá com o tanto que essas pessoas aparentemente maravilhosas, não o são tão assim... E também se surpreenderá com o quanto você é maravilhosa e nem tinha se dado conta até hoje! Descobrirá muita gente nova e linda. Muita gente boa, diferente... Permita-se.
Eu tenho muito a fazer agora, preciso correr e viver o máximo que puder.
Eu já perdi tempo demais.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Meu hobby. Dança do Ventre.

Dancinha na festa de Natal, tudo improviso, só um momento de descontração mesmo. Lembrando que não sou bailarina profissional (nota-se, obviamente) e que danço por hobby!



E aqui neste segundo vídeo temos a participação especialíssima de Edu e Helena, um chegando como elemento surpresa e a outra me fazendo carinho pra colaborar no cambret... hahaha

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Boas Novas - Cazuza



Boas Novas

Cazuza


Poetas e loucos aos poucos

Cantores do porvir

E mágicos das frases

Endiabradas sem mel

Trago boas novas

Bobagens num papel

Balões incendiados

Coisas que caem do céu

Sem mais nem porquê




Queria um dia no mundo

Poder te mostrar o meu

Talento pra loucura

Procurar longe do peito

Eu sempre fui perfeito

Pra fazer discursos longos

Fazer discursos longos

Sobre o que não fazer

Que é que eu vou fazer?




Senhoras e senhores

Trago boas novas

Eu vi a cara da morte

E ela estava viva

Eu vi a cara da morte

E ela estava viva - viva!




Direi milhares de metáforas rimadas

E farei

Das tripas coração

Do medo, minha oração

Pra não sei que Deus "H"

Da hora da partida

Na hora da partida

A tiros de vamos pra vida

Então, vamos pra vida



Senhoras e senhores

Trago boas novas

Eu vi a cara da morte

E ela estava viva

Eu vi a cara da morte

E ela estava viva - viva!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Quem viver, terá!

Momento de descontração aqui no blog! Música de Zizi Possi pra gente rir um pouco da nossa inimiga celulite!
Tive a honra de doar um segundo pra ajudar a divulgar a brincadeira!
Zizi, você é incrível! Sua proximidade com os fãs, sua igualdade de tratamento, o partilhar sua rotina, dores e alegrias fazem de você essa Deusa de Simplicidade e Talento.

Uma cantora do seu nível, imortalizada por clássicos maravilhosos, por canções difíceis de cantar, arranjos tão refinados, de repente nos surpreende com um "sambode" pra gente cantar e rir junto!

Saber rir de si mesmo é um dom que todas temos que desenvolver!

Amo você lindona!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Janah Spinelis


...apaguei num sono profundo, sonhei que era chamada pra dançar na xuxa mas em cima da hora perdia o convite pro programa e me perdia indo pro projac, e tinha um homem q era feito de gasolina e ameaçava explodir o tempo inteiro (ele já tinha me perseguido em outros sonhos, voltou neste) que ficava me perseguindo perto do projac. aí eu desistia e não ia. aí acordei..." (Janah Spinelis)


Quando a gente conhece uma mulher assim, ela não passa despercebido né?
E Ana Kurosawa percebeu de longe a beleza desta amiga querida, talentosa, engraçada até doer a barriga, carinhosa e sempre pronta pra nos dar uma palavra amiga, dividir alguma piada... enfim, daquele tipo raro de pessoa que ainda preserva alguma pureza.

E foi por isso que topei este desafio, o aniversário dela é só no fim do mês, mas a gente quer comemorar a partir de agora, (até porque não vou conseguir esconder este desenho até lá, hauauhaua).

Janah, querida, aceite este presente como prova da Amizade e Carinho da Ana Kurosawa e de mim!
Embora eu não tenha conseguido captar sua real beleza, espero que tenha conseguido pelo menos arrancar um sorriso seu!

FELIZ ANIVERSÁRIO! FELIZ DEZ ANOS DE CARREIRA! 

Prossiga dançando e encantando a alma de todos!

Um grande beijo!


ESPERO TER ARRANCADO UM SORRISO SEU!
pROSSIGA ENCANTANDO A TODOS COM SUA DANÇA E ARTE!
TE AMAMOS!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ozzy Osbourne - Mama I'm Coming Home

Os tempos mudaram e os tempos são estranhos
Aqui venho eu, mas eu não sou o mesmo
Mamãe, eu estou vindo para casa
Os tempos que se foram parecem ser
Você poderia ter sido uma amiga melhor para mim
Mamãe, eu estou vindo para casa

Me levou para dentro e depois me tirou
Sim, você me tinha hipnotizado
Perdido e encontrado e virado
Pelo fogo em seus olhos

Você me fez chorar, me contou mentiras
Mas eu não agüento dizer adeus
Mamãe, eu estou vindo para casa
Eu poderia estar certo, poderia estar errado
Machuca tanto, foi há muito tempo
Mamãe, eu estou vindo para casa

Amor egoísta, sim estamos ambos sozinhos
O passeio antes de uma queda
Mas eu levarei este coração de pedra
Eu tenho que ter tudo

Eu vi seu rosto por centenas de vezes
Cada dia que ficamos separados
Eu não me importo com o nascer do sol
Porque mamãe, Mamãe, eu estou vindo para casa
Eu estou vindo para casa

Me levou para dentro e depois me tirou
Sim, você me tinha hipnotizado
Perdido e encontrado e virado
Pelo fogo em seus olhos

Eu vi seu rosto por mil vezes
Cada dia que ficamos separados
Eu não me importo com o nascer do sol
Porque mamãe, Mamãe, eu estou vindo para casa
Eu estou vindo para casa

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

De volta pra casa.

Está no blog da Zizi Possi hoje. Mas eu TIVE que trazer pra cá.
Os que me conhecem intimamente saberão porque precisei trazer para cá.
Obrigada Zizi, por partilhar conosco essa jóia de mensagem!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Outubro, mês de conversarmos sobre as crianças...

Vamos lá. É muito bonito e legal brincar com as nossas crianças não é? Nossos filhos, sobrinhos, netos, crianças que sabemos e vemos ser bem cuidadas, amadas nutridas física e mentalmente.
Mas e quando a gente vê alguma injustiça? Não falo apenas daquele outro extremo, as crianças da rua, da Etiópia, etc. Não é preciso ir muito longe para vermos coisas erradas e que NÓS MORTAIS COMUNS E SEM MUITO DINHEIRO podemos ajudar...
As pessoas as vezes não ajudam porque dizem "Ah eu não tenho dinheiro" ou tem medo de dar dinheiro e ser usado pra drogas etc.
Então aqui vai uma lista de idéias que você pode adotar, não para o mês de outubro, mas para a sua vida O ANO INTEIRO.

1- Tem filhos? Eles crescem, as roupinhas vão ficando pequenas, mas como vc sempre cuidou bem delas, ainda devem estar em ótimo estado para doação. Não espere outubro para doar, todo dia tem alguém precisando delas!
2- Brinquedos. Nossos filhos costumam ter mais brinquedos do que precisam. Com a Helena tenho feito assim, para ganhar um novo, é preciso doar alguns antigos, não quebrados!
3- E aquele seu vizinho que apanha horrores dos pais, que você vê os exageros nos gritos, tapas, etc... e aquela criança da escola do seu filho que todo mundo sabe que vive um drama familiar e ninguém faz nada? Gente, temos que perder o medo de DENUNCIAR. Existe o Conselho Tutelar, existe o disque-denúncia anônimo, procure os números da sua cidade! Acredite, se fosse você alí, sendo abusado, violentado, física, sexual ou mentalmente você gostaria muito que qualquer pessoa te ajudasse!
4- E as SUAS CRIANÇAS? Você tem separados algumas horas na semana para fazer algo junto com elas?
Vale desenhar junto, passear com os cachorros junto com ela, um parquinho, um cinema, alugar um desenho e assistir junto com ela, fazer uma pipoca pra ela, ou algo que ela goste, jogar video-game ou qualquer joguinho que ela curta. Brincar de maquiagem, ou de mangueira no quintal para regar as plantas, qualquer coisa vale para integrar a companhia dos nossos pequenos ao nosso dia a dia maluco e tantas vezes ocupado!
Outubro é o mês das crianças... não, a infância toda deve ser celebrada!!!
Celebrada, protegida e VIGIADA!

DENUNCIE MAUS TRATOS, PEDOFILIA E QUALQUER FORMA DE VIOLÊNCIA CONTRA A INFÂNCIA E JUVENTUDE, SEJA A VOZ QUE ELES AINDA NÃO POSSUEM, QUEM SILENCIA É CÚMPLICE! NÃO SEJA CONIVENTE, NÃO SEJA TOLERANTE A NENHUMA FORMA DE VIOLÊNCIA!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Envelhecendo com dignidade...

Um dos assuntos que mais atraiu a minha atenção hoje foi o pessoal comentando sobre o Axl Rose e o show dele ontem no Rock in Rio... Bem, eu assisti hoje de tarde pelo you tube.
Deu vontade de fazer algumas considerações e constatações.

 Desculpem colegas, mas o show foi fraco. Por muitos motivos. Ele não tem condições físicas (não é gordura não, porque Tim Maia mandava muito bem (antes de ficar doente) e sempre foi obeso; ele não tem condições aeróbicas, vocais e de saúde. Ele tá péssimo. Os músicos não eram ruins, mas para chegar ao nível de qualidade que eles se propunham a oferecer há 20 anos atrás.

Eu quero destacar algumas qualidades necessárias para o que chamamos de QUALIDADE. Algo tem qualidade quando tem técnica que envolve a arte, (ou a coisa, ou o que for), quando tem constância (funciona bem, mesmo depois de "bastante usado" se me entendem), quando cumpre aquilo a que se propõe.

Mas falando em arte, envelhecer com dignidade não é parar de usar visual exótico, calçar pantufas, pegar os óculos e ir pra varanda. Envelhecer com dignidade é dar continuidade à sua obra, é manter o nível, se possível melhora-lo, ou ter a percepção de que é hora de parar, como fazem grandes esportistas, artistas do corpo.
Envelhecer é apenas conseqüência da vida de todos nós, não uma desculpa, um argumento para justificar seus erros. "Eu posso fazer malfeito porque estou velho" . Não, não pode. Então pare de fazer e deixe que outro faça em seu lugar se for pra fazer merda.

Vou citar exemplos de gênios das artes que para mim, envelhecem e envelheceram com dignidade:

1- Mick Jagger: Já é sessentão, e tem fôlego para mais 50 anos, assista a qquer vídeo recente dele e verá como ele transborda energia, ritmo e puro rock n' roll

2- Tina Turner: Pura energia, potência vocal, afinação 100%, é a razão da simpatia, do poder, do algo mais e da alegria!

3- Frejat, não é mais nenhum mocinho e arrasou no Rock n' Rio, com aspecto lindo, saudável, voz impecável, e a mesma qualidade (aprimorada) de sempre. Pura elegância no Rock n' Roll.

4- Ozzy Osbourne: Homem que viveu inúmeros problemas de drogas, de obesidade, de família, ta aí,  continua ativo, fez um showzaço este ano aqui no Brasil, sua voz está impecável e seu poder de liderança no palco é assustador.

5- Meu amado e querido Lobão, 50 anos, MANDANDO VER E QUEBRANDO TUDO com rock brasileiro e INTELIGENTE, FILOSÓFICO.

Mudando de áreas só pra salpicar no texto, tantos outros que ficam velhos, ficam melhores, vide Jorge Amado, José Saramago, Mario Lago, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, gente, eles produzem e produziram COM ALTISSIMA QUALIDADE sem deixar a peteca cair! O que todas essas pessoas tem em comum? Elas transpiram PAIXÃO pelo que fazem. A alegria que o Ozzy entra num palco, imagine quantas vezes ele já não fez isso na vida? Ele entra radiante! Cheio de energia!
No show da Zizi Possi, 30 anos de carreira, ela SE EMOCIONA ao cantar músicas de 20 anos atrás.
Tina Turner sorri pras pessoas e canta com a alma, doando o que tem de melhor, porque ainda é vinho bom!

Estar gordo, velho, drogado, sei la, não é justificativa para apresentar queda na qualidade do que faz, envelhecer com dignidade é seguir a escolha que vc fez pra sua vida, não se entregar as dificuldades que a idade, a vida, a doença traz, e se não conseguir superar, ter sabedoria para decidir quando parar. Picasso, Beethoven, Volpi, nossa, podemos ficar tempos aqui pensando em pessoas que fizeram coisas lindas de alta qualidade até a 3ª, 4ªidade, rs*

Envelhecer com dignidade é tratar os mais jovens com respeito e amor, mostrar como se faz, dar o exemplo. Tem gente que envelhece e acha que por isso não precisa mais ser elegante, educado, e pode chutar o balde nas pessoas. Tem gente que envelhece e vira guru, é seguido pelos mais jovens pelos seus exemplos e ensinamentos.

Repito, reveja seu objetivo de vida. O que você decidiu ser. Quem você decidiu ser. E mantenha esses princípios até o fim, com a mesma qualidade da juventude. Isso é envelhecer com dignidade. Se não for assim, você está só "morrendo aos poucos".

Pra mim, o show de ontem do Axl Rose me mostrou que ele parecia estar cumprindo agenda, contrato. Os músicos da banda eram músicos profissionais comuns, mas que não estavam à altura do produto Guns N' Roses que eles vendiam para o publico ha 20 anos atrás. O Axl  tem mais a mesma qualidade. Pra mim é a hora de parar. Ou retomar estudos, rever diretrizes de carreira. Ele me deprimiu no palco.
Ele parece não saber o que fazer consigo agora que não é mais sex simbol, que não tem mais os agudos mais potentes... poderia mudar tudo, continuar na música, mas não se propor a fazer o que fazia em outras décadas, porque definitivamente aquilo lá não foi digno da qualidade que um dia eles tiveram... Tocar por mais de duas horas... tá, isso não significa que fez bonito, um monte de gente fica anos e anos fazendo um monte de merda diariamente e não se cansa. Ficar duas horas berrando dissonâncias e passando mal não é sinônimo de força e experiência.

Eu, não gostei.

Ps: A imagem de hoje é o bom e velho OZZY OSBOURNE, que assume sua idade, seus problemas mas não cai em qualidade vocal e musical nunca! SALVE OZZY, quero envelhecer assim!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

"Ensaio sobre a cegueira" (José Saramago)

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (1995)
(...) O médico perguntou-lhe, Nunca lhe tinha acontecido antes, quero dizer, o mesmo de agora, ou parecido, Nunca, senhor doutor, eu nem sequer uso óculos, E diz-me que foi de repente, Sim, senhor doutor, Como uma luz que se apaga, Mais como uma luz que se acende, Nestes últimos dias tinha sentido alguma diferença na vista, Não, senhor doutor, Há, ou houve, algum caso de cegueira na sua família, Nos parentes que conheci ou de quem ouvi falar, nenhum, Sofre de diabetes, Não, senhor doutor, De sífilis, Não, senhor doutor, De hipertensão arterial ou intracraniana, Da intracraniana não sei, do mais sei que não sofro, lá na empresa fazem-nos inspecções, Deu alguma pancada violenta na cabeça, hoje ou ontem, Não, senhor doutor, Quantos anos tem, Trinta e oito, Bom, vamos lá então observar esses olhos. O cego abriu-os muito, como para facilitar o exame, mas o médico tomou-o por um braço e foi instalá-lo por trás de um aparelho que alguém com imaginação poderia ver como um novo modelo de confessionário, em que os olhos tivessem substituído as palavras, com o confessor a olhar directamente para dentro da alma do pecador, Apoie aqui o queixo, recomendou, mantenha os olhos abertos, não se mexa. A mulher aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, disse, Verás como tudo se irá resolver. O médico subiu e baixou o sistema binocular do seu lado, fez girar parafusos de passo finíssimo, e principiou o exame. Não encontrou nada na córnea, nada na esclerótica, nada na íris, nada na retina, nada no cristalino, nada na mácula lútea, nada no nervo óptico, nada em parte alguma. Afastou-se do aparelho, esfregou os olhos, depois recomeçou o exame desde o princípio, sem falar, e quando outra vez terminou tinha na cara uma expressão perplexa, Não lhe encontro qualquer lesão, os seus olhos estão perfeitos. A mulher juntou as mãos num gesto de alegria e exclamou, Eu bem te tinha dito, eu bem te tinha dito, tudo se ia resolver. Sem lhe dar atenção, o cego perguntou, Já posso tirar o queixo, senhor doutor, Claro que sim, desculpe, Se os meus olhos estão perfeitos, como diz, então por que estou eu cego, Por enquanto não lhe sei dizer, vamos ter de fazer exames mais minuciosos, análises, ecografia, encefalograma, Acha que tem alguma coisa a ver com o cérebro, É uma possibilidade, mas não creio, No entanto o senhor doutor diz que não encontra nada de mau nos meus olhos, Assim é, Não percebo, O que quero dizer é que se o senhor está de facto cego, a sua cegueira, neste momento, é inexplicável, Duvida que eu esteja cego, Que ideia, o problema está na raridade do caso, pessoalmente, em toda a minha vida de médico, nunca me apareceu nada assim, e atrevo-me mesmo a dizer que em toda a história da oftalmologia, Acha que tenho cura, Em princípio, porque não lhe encontro lesões de qualquer tipo nem malformações congé-nitas, a minha resposta deveria ser afirmativa, Mas pelos vistos não o é, Só por cautela, só porque não quero dar-lhe esperanças que depois venham a mostrar-se sem fundamento, Compreendo, Pois é, E deverei seguir algum tratamento, tomar algum remédio, Por enquanto não lhe receitarei nada, seria estar a receitar às cegas, Aí está uma expressão apropriada, observou o cego. O médico fez que não ouvira, afastou-se do banco giratório em que se tinha sentado para a observação, e, mesmo de pé, escreveu numa folha de receita os exames e análises que considerava necessários. Entregou o papel à mulher, Aqui tem, minha senhora, volte cá com o seu marido quando tiver os resultados, se entretanto houver alguma modificação no estado dele, telefone-me, A consulta, senhor doutor, Paga à empregada da recepção. Acompanhou-os à porta, balbuciou uma frase de confiança, do género Vamos a ver, vamos a ver, é preciso não desesperar, e quando se encontrou de novo só entrou no pequeno quarto de banho anexo e ficou a olhar-se no espelho durante um longo minuto, Que será isto, murmurou. Depois regressou ao gabinete, chamou a empregada, Mande entrar o seguinte. Nessa noite o cego sonhou que estava cego."

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Passagem.

Talvez esta seja a última carta que lhe escrevo,
não por nada a ser dito
e nem por você deixar de me visitar,
pois sempre te encontro em algum sonho ou rima,
ou por trás desses óculos escuros...
Mas sim porque hoje senti uma dor aguda no peito
E não era dor de saudade, nem nostalgia crônica
Era uma dor ardida, física,
Daquelas que me fez pensar numa morte besta,
Um infarto esparramado no começo da noite...
Imóvel.
E me dei conta de que não consegui te contar
que já são muitos os meus cabelos brancos,
e minhas mãos mais ressecadas...
E meu rosto tão marcado, um calendário...
Você também não sabe que já me esqueço de muitas coisas,
E revivo outras diariamente...
Eu sei que você não leu "O Conto da Ilha Desconhecida"
e eu não sei qual é o livro que você ia me emprestar,
Porque agora não tenho mais seu telefone,
Talvez um dia confunda seu nome,
Perca seu rosto,
Mas nunca, nunca esquecerei
Quem você é...
Existe a hipótese disso ser tudo mentira
E que amanhã eu esteja aqui, novamente em sua porta,
Pra dizer nenhuma novidade,
e nessas minhas repetições sim, eu me perca,
Labirinto angustiante de viver eu mesma,
Onde a única saída, talvez seja mergulhar nesse ardor noturno,
Que talvez me transporte para um dos sonhos,
Ou uma rima...

"Já não dói muito. Assisto como a um filme onde só por acaso sou personagem..." (C.F.A)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Receita Azul.

Parto ao anoitecer
E engulo o dia em meia dose
Para deitar minha cabeça num travesseiro de efeito rápido
E tem sido assim desde que eu me fui,
Desde que me perdi no caminho
Para amanhecer tem mais alguns remédios
Mas estes não me curam do sol que insiste em me acordar,
Do dia que persiste em me partir...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sexta-feira.

Em dias assim,
Eu gostaria de não possuir as mãos tão geladas,
Nem a boca seca
E estes meus olhos perdidos ainda vagam sem foco,
Submersos
Nestes meus pensamentos sem fôlego,
Aprisionados nesse corpo atado
Numa sexta-feira que não se acaba...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

POEMA EM LINHA RETA

    "Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,
    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?
    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

    Álvaro de Campos

    Imagem: "Operários - Tarsila do Amaral 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Favor não confundir histriônicos com artistas de verdade.

Hoje o post é longo porque eu preciso primeiro formar-lhes pelo menos uma idéia básica do conceito sobre o qual vou desenrolar o tema de hoje. A fonte é Wikipédia, pois é um resumo honesto e bem feito. Vejamos:

"Transtorno de personalidade histriônica é definido pela Associação Americana de Psiquiatria como um transtorno de personalidade caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar atenção para si mesmo, incluindo a procura de aprovação e comportamento inapropriadamente sedutor, normalmente a partir do início da idade adulta. Tais indivíduos são vívidos, dramáticos, animados, entusiásticos e paqueradores.
Podem ser também inapropriadamente provocativos sexualmente, expressarem emoções de uma forma impressionável, e serem facilmente influenciados por outros. Entre as características relacionadas estão egocentrismo, auto-indulgência, anseio contínuo por admiração, e comportamento persistente e manipulativo para suprir suas próprias necessidades.

Características
Pessoas com este transtorno em geral são capazes de conviverem normalmente e alcançarem sucesso social e profissional. Indivíduos com transtorno de personalidade histriônica geralmente possuem bons dotes sociais, mas tendem a usá-los para manipular os outros e tornaram-se o centro das atenções.[1] Mais além, o transtorno pode afetar os relacionamentos sociais ou românticos de uma pessoa, assim como sua habilidade em lidar com perdas ou fracassos.


Elas começam bem relacionamentos, mas tendem a hesitar quando profundidade e durabilidade são necessários, alternando entre extremos de idealização e desvalorização. Com o fim de relações românticas podem buscar tratamento para depressão, embora isto não seja de forma alguma uma característica exclusiva a este transtorno.

Elas frequentemente não conseguem visualizar sua própria situação pessoal de forma realista e tendem, ao invés disso, a dramatizar e exagerar suas dificuldades. Podem passar por frequentes mudanças de emprego, pois entediam-se facilmente e têm problemas em lidar com a frustração. Por costumarem ansiar por novidades e excitação, podem colocar-se em situações de risco. Todos esses fatores podem aumentar o perigo de desenvolvimento de depressão.


Entre os sintomas adicionais estão:
Comportamento exibicionista;


Busca constante por apoio ou aprovação;


Dramatização excessiva com demonstrações exageradas de emoção, tais como abraçar alguém que acabou de conhecer ou chorar incontrolavemente durante um filme triste;
Sensibilidade excessiva frente a críticas ou desaprovações;


Orgulho da própria personalidade, relutância em mudar e qualquer mudança é vista como ameaça;


Aparência ou comportamento inapropriadamente sedutor;


Sintomas somatoformes, e utilização destes sintomas como meio de chamar atenção;


Necessidade de ser o centro das atenções;

Baixa tolerância à frustração ou à demora por gratificação;


Rápida variação de estados emocionais, que podem parecer superficiais ou exagerados a outrem;


Tendência em acreditar que relacionamentos são mais íntimos do que na realidade são;



Leu? Agora vamos aos fatos. Eu observo muito as pessoas, seja para retrata-las, seja para conhecê-las e um detalhe sempre me chama a atenção, até que hoje, percebo que é um comportamento repetitivo em pessoas com mesmas características.
 
Fato um - Existem muitos histriônicos de talento artítisco inquestionável.
Fato dois - Existem muitos histriônicos sem talento algum.
Fato três - Existem muitos histriônicos sem talento algum que tentam nos convencer do contrário.
Fato quatro - E eu estou ficando com o saco bem cheio de gente doente que se passa por "gênio da arte"
 
Vamos listar?
1- Tô de saco cheio de bailarina sem técnica que põe roupa sexy, rebola e acha que está dançando horrores. Meu bem, estética conta pontos, mas não segura e nem mantém carreira profissional.
2- Também cansei de músicos, cantores, cantoras, que se projetam como se estivessem no palco da Broadway, com caras e bocas e currículos do tipo "Toco/danço/canto/desenho desde os 4 anos de idade, onde meus familiares já reconheciam o alto nível do meu talento, e blá blá blá..." Vou ter que chocar você agora, TODO MUNDO QUE TEVE UM MÍNIMO DE INFÂNCIA, batucou, cantou, dançou e desenhou na pré-escola e em casa também. Pergunte pra sua mãe.
3- A pessoa acaba de te conhecer e já te ama, já se enfia na sua vida-casa-geladeira-armário-facebook e se bobear, conta corrente. E acredita que vc sente tudo isso por ela também. Fique calmo, se eu te amar, eu te aviso.
4- A gente percebe quem faz arte porque é assim mesmo, porque realmente vem da alma da pessoa, porque ela faz isso há anos e não desiste. Nota-se na coerência de seus atos, no equilíbrio do que faz, enfim, a pessoa não fica criando oportunidades só pra ganhar aplausos, pra se alimentar e sobreviver deles.
5- E os "amados-amantes", gente, parem de posar de sexy symbol do ano, porque é ridículo a pessoa aparecer no meio do gueto vestido com roupa e pompa de entrega do Oscar. Também é ridículo ficar se insinuando para todas as pessoas comprometidas do recinto. Vira piada depois tá?
 
E antes que comecem a me pedir os nomes dos bois, já adianto que este post já vem sendo tramado há anos, porque eu vejo tudo isso aí desde meus 20 e poucos anos, mas é um todo tão recorrente, tão recorrente que hoje resolvi partilhar...
 
Ai cansei viu gente?
 
 

sábado, 27 de agosto de 2011

Edith Piaf - Non Je Ne Regrette Rien (Live)


Não, Eu Não Me Arrependo de Nada

Não! Nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal - isso tudo tanto faz! (5)

Não, nada de nada...
Não! Eu não lamento nada...
Está pago, varrido, esquecido
Não me importa o passado! (2)

Com minhas lembranças
Acendi o fogo (3)
Minhas mágoas, meus prazeres
Não preciso mais deles!

Varridos os amores
E todos os seus temores (4)
Varridos para sempre
Recomeço do zero.

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...!
Nem o bem que me fizeram
Nem o mal, isso tudo tanto faz! (5)

Não! Nada de nada...
Não! Não lamento nada...
Pois, minha vida, pois, minhas alegrias
Hoje, começam com você!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ela me feriu.

Se você gosta de música desde criança deve ter alguma lembrança de como essa paixão começou... Pois bem, eu tenho e esses últimos dias pude revisitar muitos destes sentimentos..
Na casa dos meus pais, no bairro da Liberdade, em São Paulo, ouvia-se mais rádio do que se via TV. O rádio ficava ligado quase o dia todo, minha mãe ouvindo notícias, geralmente na Rádio Bandeirantes, e de manhãzinha aquelas narrações sanguinárias dos crimes da semana no programa do Gil Gomes, acho que rádio Record não me lembro... 

Meu pai ouvia notícias também, mas também os programas da Cultura AM e FM, onde se ouvia muito Chico Buarque, Caetano, GIl e afins dos anos 70 e 80...
E foi talvez numa dessas trocas de aparelho que eles me deram em 1985 um rádio AM/FM, eu era criança e aquele rádio para mim era como uma relíquia, algo muito valioso, sendo que a maioria das minhas amiguinhas ouviam música no rádio familiar, único na família.

Eu estudava de manhã, à tarde fazia meus deveres e corria pro meu radinho. ERa época de ouvir Blitz, Lobão, Marina Lima, Zizi Possi, Guilherme ARantes, Léo Jaime, RPM, Jorge Ben, Sandra Sá, enfim, eu me amarrava naquilo tudo! Bastou um ano de rádio que pedi um violão pro meu pai, ele me comprou um DI Giorgio, série estudante, que era tudo pra mim. Aí chegou a hora de tentar ir além da aulinha oferecida para o professor às meninas da 4ª série do colégio de freiras...
Comprei uma revistinha de cifras, em papel jornal (quem se lembra dá um sorriso!) e fiquei tão feliz, lá tinha "Perigo" que na época era sucesso na voz da Zizi Possi. Claro que não sei  o que era pior, eu cantando no naipe da Zizi ou tocando violão, mas estava selada a minha paixão pela música. O violão durou alguns anos, mas sem que eu conseguisse algum progresso digno de registro.... Mas o canto eu persisti por mais tempo, persisto até hoje com alguns progressos medianos, mesmo com a recordação da minha mãe me dizendo  que eu não tinha muito futuro como cantora, rs* Aí resolvi que a partir daquele momento eu só cantaria dentro do guarda-roupas, trancada no quarto, com o volume do som alto para me ocultar, seria melhor e mais seguro para todos.

Até hoje ouço rádio, tento cantar com alguma dignidade, e mantenho as paixões pelos mesmos ídolos.
E no último dia 14 de agosto pude finalmente ir à um show da lindíssima Zizi Possi. Os meus amigos mais próximos sabem o que isso significa para mim, eu tenho uma identidade com a obra dela desde os já narrados anos 80. Nos anos 90 ela embalou minhas paixões, as dores, amores, reflexões... identidade. Porque música é assim, a gente ouve, sente e ela nos pega ou não. Eu já fui em muitos shows maravilhosos, já vi Caetano, Rita Lee, Marisa Monte, Alceu Valença, Chico Cesar... mas olha... o que a Zizi Possi arrancou de mim no último sábado, não tem palavras.

Ela entrou no palco entoando os vocalizes de "A Paz" do Gilberto Gil, aquele timbre, aqueles vocais, vão crescendo conforme ela entrou  no palco e junto com as luzes ela se revelou iluminada, clara, límpida como sua  voz que a essas alturas já entrou na sua alma e quando eu me percebi, estava perdida no universo daquela criatura imensa.
Eu imagino que a Zizi tenha destruído muitos corações na vida, homens e mulheres, porque é impossível passar batido por essa mulher. Não digo só pela voz, mas pela presença dela, a presença agride o nosso olhar com tanta beleza e força de espírito. É uma beleza que incomoda, porque é inquieta, é doce, mas estrondrosa, é delicada, mas intensa. E as músicas que ela seleciona pra cantar, pela força com a qual ela interpreta, desnuda um pouco do ser humano, interior, denso. Não tem como ser só suave, a voz é suave, mas as canções são arrebatadoras... Ela provavelmente já viveu na carne cada uma das emoções que canta. É só assim que uma mulher canta "As rosas não falam" e consegue se emocionar todas as vezes como se fosse a primeira vez...

Ela fez um show incrível, mesmo tendo comentado estar muito emotiva, mesmo sem ter feito um bis... o que ela nos ofereceu durante o show , já foi tanto, tanto, que pedir um bis soaria como ofensa. 
O retorno do público era notável, todos cantavam junto com ela, o que ela pedisse, seria acatado. Domínio dos graves, dos agudos, das longas extensões, dos crescentes... domínio de cada uma das pessoas presentes naquela noite. Maestrina de notas e gente. Ela saiu do palco mais cedo, mas ela pode. Ela pode tudo.
Eu levei alguns dias para me refazer, ainda estou mexida, mas consigo catarsear um pouco do que ela fez comigo. Me confunde, porque foi horrível o que ela fez comigo, mas foi a coisa mais maravilhosa que já vi. Ela me arrebatou, ela me destruiu. Do modo mais lindo que há, mas foi como levar uma surra mesmo, não consigo explicar de outra forma. Meu peito doía no dia seguinte ao show, ainda falta ar de vez em quando, se começo a rever os momentos. Que voz perfeita, interpretação profunda, Arte, com letras maiúsculas e douradas.
Ela fere, com seu amor, sua delicadeza, com sua força, com sua sensibilidade que transborda de seu olhar, o modo como move as mãos, como silencia na hora certa. Ela fere.
E se já não feriu, ainda vai ferir você.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Para Zizi

E então, diáfana,
Ergueu-se a minha frente aquela criatura irreal,
Cuja voz me conduziu por caminhos sagrados
Onde a mim, vulgar espectadora,
Foi dado por alguns instantes o direito à luz
Eu, tão íntima das trevas,
Fui erguida por tamanha delicadeza,
Por uma voz que é fusão de cristal e trovão
Uma força que expandiu os limites da casa,
Rompeu com o bem e o mal,
Me despedaçou
E agora, já não sei o que fazer comigo,
Reduzida às lágrimas e às lembranças daquele brutal aroma de rosas...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ne Me Quitte Pas


Só ela gravou essa música da maneira que me leva às lágrimas... a sentir o significado real dessa letra maravilhosa...













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Ne Me Quitte Pas
Composição: Jacques Brel

Ne me quitte pas

Il faut oublier

Tout peut s'oublier

Qui s'enfuit déjà

Oublier le temps

Des malentendus

Et le temps perdu

A savoir comment

Oublier ces heures

Qui tuaient parfois

A coups de pourquoi

Le coeur du bonheure



Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas



Moi je t'offrirai

Des perles et des pluie

Venues de pays

Où il ne pleut pas

Je creuserai la terre

Jusqu'après ma mort

Pour couvrir ton corps

D'or et de lumière

Je ferai un domaine

Où l'amour sera roi

Où l'amour sera loi

Où tu seras reine



Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas



Ne me quitte pas

Je t'inventerai

Des mots insensés

Que tu comprendras

Je te parlerai

De ces amants-là

Qui ont vu deux fois

Leurs coeurs s'embraser

Je te racontrai

L'histoire de ce roi

Mort de n'avoir pas

Pu te rencontrer



Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas



On a vu souvent

Rejaillir le feu

De l'ancien volcan

Qu'on croyait trop vieux

Il est paraît-il

Des terres brûlées

Donnant plus de blé

Qu'un meilleur avril

Et quand vient le soir

Pour qu'un ciel flamboie

Le rouge et le noir

Ne s'épousent-ils pas



Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas



Ne me quitte pas

Je ne vais plus pleurer

Je ne vais plus parler

Je me cacherai là

A te regarder

Danser et sourire

Et à t'écouter

Chanter et puis rire

Laisse-moi devenir

L'ombre de ton ombre

L'ombre de ta main

L'ombre de ton chien

Ne me quitte pas



Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas