sábado, 30 de dezembro de 2006

Um dia de José Clemente Divario.

Esta postagem, intitulada "Um dia de José Clemente Divario", conta um dia deste ex-executivo carioca em três blogs. No blog do Fred Neumman, foi contado o dia das 7h00m às 15:00. Aqui, conto o período das 15h00 às 23h00m. Em breve, o período de 23h00m até as 7h00m, terminando o dia do Zé Clemente no blog da Monica Santos. Eu não me sinto muito à vontade em narrativas, mas topei a brincadeira desses amigos aos quais estimo muito (e que têm blogs legais à beça!), leiam a estória, conheçam os blogs e... Divirtam-se!

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15h00m: Modelar Rita em argila era bárbaro, “desejar a mulher do próximo”... Pecado. Desejar e modelar em barro seus seios, coxas, alisar-lhe as costas com dedos molhados em água, criar-lhe cabelos, descobrir-lhe o pescoço, tudo isso lhe aumentava a culpa. Ia dando forma ao bloco de argila, e aos poucos o que antes era abstração, agora era palpável, Rita ali, no Divã Rio, em suas mãos, úmida, em deleite, pronta para passear num dos seus barquinhos. Sentiu-se constrangido em não modelar Lucio. Mas Lucio podia esperar, estava trabalhando no mercado de peixes...

16h00m: Café. Café tem o poder de fazer o tempo passar suavemente, porém, ligeiro...
Café. Zé Clemente não pensa mais em descafeinados, em adoçantes, nada disso. Apenas café, que agora é puro, sem açúcar, pelo prazer do grão... Sua solidão ecoa na pequena xícara e se alastra na imensidão da mesa... Imaginava-se bebendo os beijos de Rita... Quentes, fortes, esparramados pela boca...
Quando vivia no Rio, não tinha tempo para imaginar beijos, nem saborear café. Ele “tomava cafezinho”; quem saboreia café precisa preparar a xícara, a água (não ferva a água do seu café) o pó, depois coar sem pressa (e sem ficar remexendo tá?) para somente em seguida, sentar-se e deliciar-se. Zé Clemente saboreava a fantasia de beijar Rita...

17h00m: Zé Clemente sabe que o mercado de peixes só funciona até as 18h00m e resolve arrumar-se para ir até lá. Não queria apresentar-se com um aspecto muito desleixado (vaidade era amiga distante ultimamente), porém, pela primeira vez em muitos anos, pensava em fazer-se melhor. Ou pelo menos “parecer” melhor.
Espelho é um objeto que todos nós temos pelo menos um em casa. O que difere um espelho do outro é a crueldade. Espelhos revelam rugas, cabelos brancos, manchas na pele, quilos a mais, amarelo nos dentes. Cruéis... Revelam culpas, arrependimentos, punem, interrogam, apontam o dedo na cara do sujeito. Mas o espelho do Zé, hoje, havia saído. Ou estava dormindo. Ou estava mudo. É! O espelho do Zé ficou mudo de repente. Não disse se ele era ridículo por estar se arrumando para ir ao mercadão, se era ridículo apaixonar-se por uma desconhecida, se era ridículo conhecer seu “rival-platônico”, se eram ridículos seus chinelos de borracha. Nada. O espelho do Zé calou, deixando que este saísse em busca de algumas tainhas, procurando quem era Lucio que prendera Rita.

18h00m: O Mercadão já estava quase vazio, só um pessoal lavando os grandes tanques que comportam os peixes, lavando o piso, e o chão era um grande emaranhado de mangueiras d’água, azuis, amarelas, laranjas... O cheiro de peixe fresco no ar. É diferente de cheiro de peixe na cidade grande. Peixe nas feiras do Rio de Janeiro, nas feiras de São Paulo, cheira diferente, é cheiro de peixe sufocado, abafado, peixe que não agüenta mais ser peixe. Ali não, o peixe era peixe e fim.
Zé Clemente perguntou a um conhecido seu, dono de um pequeno boteco freqüentado pelos nativos da região, quem era Lucio, mas no mesmo instante em que fez a pergunta, avistou Rita, ao lado de um pescador, alto, uns 50 anos, já fechando seu box no mercado. A prefeitura havia feito umas divisórias para tornar o mercado dos peixes mais organizado, e quem se registrava na prefeitura com imposto, alvará e tal, podia ocupar um dos box equipados com bons balcões, esgoto, infra-estrutura, e publicidade nos livretos turísticos do vilarejo. Lucio era dono de um dos box, cansado de vender peixe debaixo de sol, tinha agora alguns confortos que sua experiência e seu meio século de vida proporcionou. Rita avistou Zé, e acenou-lhe com a mão, chamando-o para perto. Apresentou-lhe o companheiro, Lucio, que o cumprimentou de modo nem simpático, nem rude. Cumprimentou-o como quem olha para um sapo. Curioso, mas nada encantado. Prestando atenção, mas dividido entre a discrição pessoal e seu modo rústico de fingir... Afinal esses quatro anos não deixaram Zé Clemente com cara de nativo e nem preservaram seus traços cariocas... Zé era um cara sem identidade, meio yuppie, meio hippie, não parecia surfista ainda, mas não era um cara urbano. Era um zé. Mas um Zé que Lucio nunca tinha visto antes. Um Zé que fitava Rita com olhos de Rodin, que Lucio não faz idéia de quem seja...

19h00m: Os três à beira-mar, os três costurando assuntos em mesa de bar. Conversar num bar é tarefa fácil, tudo pode ser assunto. A comida servida, a temperatura da cerveja, a temporada, os turistas daquele ano, tudo poderia ser assunto; menos os olhos profundos, com marcas de gravura, em metal cortante, azul intenso que afogava Zé entre um gole e outro de cerveja, entre um raio de sol fugidio e um grilo chegando... Tudo poderia virar conversa, exceto aquela fome de Rita, de engolir Rita e todos os anos de sua vida, Zé estava faminto e não podia disfarçar... Lucio ainda olhava Zé, desconfiado, mas educado, desconfiado... Zé não parecia mais um sapo, agora parecia um Homem...

20h00m: Zé aceitou o convite de Rita para ir jantar em sua casa. Lucio e Zé Clemente lado a lado pelo calçadão, Rita mais à direita, num silêncio de quem está a preparar delicadezas... Rita sente uma atmosfera de paixão no ar, aqueles ares de sua mocidade, onde calada, em segredo, observava disputas masculinas, sedentas pelos seus olhares... Era bom sentir isso novamente... Lucio grave, sério, treinando um comportamento seguro, onde não transpareceria o medo de que Rita estivesse admirando Zé Clemente... Lucio era um homem interessante, mas assustador. Enorme, de morenice salgada e brutal, com força de mar grosso, contrastante à sua doçura de maré mansa, seu coração bondoso. Cavalheiro com as mulheres, herança da educação católica, rígida e portuguesa. Chegava a ser feio quando preocupado. Então lançava seu olhar sobre Zé, como quem procura um não sei quê não sei onde... E Zé procurava em Lucio onde morava a paixão de Rita...

21h00m: A casa de Rita e Lucio era pequeníssima, o que tornava a intimidade ainda mais sufocante, a cada respiração se esbarra em um porta-retrato, ora Rita sorrindo, ora uma blusa cochilando numa cadeira, um livro cravado num canto... Um chinelo de Lucio no caminho, flores na janela. Pretendiam preparar algo rápido, afinal já tinham devorado bobagens no mercadão, era só um prolongamento da conversa, um modo de esticar aquela noite densa, uma tentativa de aproximar seres tão distintos, Lucio e Zé. Ela estava confortável, afinal, Zé era apenas um recém amigo, daqueles que não se tem nem ao menos memórias para preencher as horas com conversas de recordações... Zé era para Rita, um universo a ser descoberto, ela que já dera tantas voltas pelo mundo, agora servia de inspiração, alimentando a imaginação de Zé; cujos olhos faiscavam a cada frase, a cada gesto daquela estrela noturna...

22h00m: A mastigação traz aquele silêncio obrigatório, terminada a comida, uns camarões, mariscos e uns pãezinhos regados vinho gaúcho, fica aquela sensação de nada a ser feito... A quem é dois, resta-lhe o amor e a meia garrafa de vinho, mas a três... Salvo os amigos de Baco, a três não se pode fazer muita coisa... Para um jogo de tranca seria necessário quatro pessoas. Três pessoas, sempre sobra um.
Lucio, preocupado com as conversas paralelas entre Zé e Rita pensa num modo de distraí-lo, um modo de afastá-lo de sua amada. O jantar todo ficou em torno das conversas entre Zé e Rita, Lucio, homem do mar, caladão, recolhe-se junto com o pôr-do-sol. Lucio dorme cedo, acorda cedo, mas naquela noite estava a postos, como quem vigia farol... Convidou Zé para ir conhecer seu barco, a voz grave de Lucio rasga uma frase inacabada de Rita: “Queres ver meu barco? Vou botar armadilha pra siri, se quiseres...” Zé quis. E muito, afinal era uma chance de desvendar o que tinha aquele homem que prendia uma mulher como Rita... E Lucio seguiu abrindo caminho pelo quintal a beira mar, imaginando o que poderia fazer com Zé, ser simpático? E se ele passasse a vir diariamente à sua casa? Se fosse rude, desagradaria Rita... O que conversariam? O barco surge numa fenda iluminada pela lua, do telhado de zinco no rancho onde Lucio guardava o barco, limpava seus peixes, guardava redes, tarrafas, lanternas... O barco, Lucio e Zé...

23h00m: Hora de prosseguir a estória em outro blog...

9 comentários:

Sergio disse...

Ol,a Ghiza!

Para quem não gosta voce fez com perfeição.Parabens!!

Um feliz 2007!!

Um beijo

Monica disse...

VCs foram perfeitos..rs...dar conta agora com um fim
à altura é que são elas....
Vamos ver o que consigo!!!!
Beijãoooooooo, parabéns, e UM MEGA FELIZ ANO NOVO!!!!!!
:***************

o alquimista disse...

Dou-te o mundo para amares, o fogo para te aqueceres, a terra para plantares, colhe um singelo arbustro e transforma em varinha de condão, mas apenas lhe des uso com o melhor que guardas no fundo do teu coração...

Luminoso 2007

Monica disse...

Oie!!!!
Publicado o final do nosso querido ZE CLEMENTE DIVARIO!!!!!!!!
Tomara que vcs curtam!!!!
:***********

FELIZ 2007 DINOVO!!!!!!
;******************
MÔNICA.

8:59 PM

Aju disse...

É agora vou ter q ir nos outros olhar tb, vc se aproveita da minha curiosidade =]

Nikita-El-Amar disse...

MUITO BOM!!!!!!! :))))

Parabéns aos três! Demais da conta!

Fred Neumann disse...

Uhuuuul, maravilhaaa!
Ghiza, querida, obrigado pelo desafio aceito, pela estória criada, pela tensão deixada no ar que só enriqueceu as horas do Zé Clemente Divario!
Obrigado pela generosidade!

Valeeeeu!

beijários,

Fred

Sonia disse...

já passei lá no Fred e agora vou em frente, pra saber como acaba essa história. Conseguirá Lúcio afastar o Zé?

O Corpitcho disse...

Oi Ghiza!

Deixo muito a desejar como blogueira e lamento não frequentar os blogs dos amigos. Mas hoje tive a grata sorte de entrar no seu e ver como segue o dia do Zé Clemente. Adorei essa visão feminina que tomou a história, parabéns!

Agora vou correr apara o blog da Mônica e ver o que aconteceu.

Bj

Aline