quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Rude.


As lágrimas salgaram as poucas palavras que,
Isoladas,
Desprenderam-se de seus significados,
Solidão salgada parece ainda maior...
Não esperava mais por algo especial,
Mereceria outra realidade?
Viva, sentia-se surreal...
Morta, seria abstração...
E desprendeu-se assim de seu próprio sentido,
Vagou-se, renúncia,
Matéria-prima bruta...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Frisson.


Teu arrepio é brincadeira,
Escala de piano,
Onda que baila em teu contorno...
Aura que me seduz e arrebata
Em sonhares e quereres de ti;
Imã que me completa,
Armadilha infalível,
Onde me entrego fragilmente
À afinada teia de seus suspiros..

domingo, 26 de novembro de 2006

Azedume.


Meu amor por ti sobrou...
Resto em fundo de copo,
Raspa de canto de prato,
Barro em sola de sapato,
Amargo na lixa da língua,
Indigesto, fermenta até hoje;
Fechado em frascos antigos,
Num olor de flor pisada,
Causa-me ardor, azia, calor,
Arrepio de enjôo e pesar,
Sobrou...
Feito eu na janela a te esperar...

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Viva.


Era prisioneira de seus anseios,
Contida,
Numa jaula de ponderações vacilantes,
Hesitante defronte ao espelho desconfiado...
Mas em tempestades incandescentes,
Entregava-se aos suspiros e delícias de acidentes libertadores,
Fantasias galopantes... Inevitáveis...
Histérica, mergulhava em sua animalidade,
Fazia-se assustadora,
Exilava-se em seus prazeres,
E inventava-se feliz.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Atenção.


Existe no meu mundo,
Um risco, perigo de perder-me,
Perder-me com minhas tolices,
Perder-me em idéias fantásticas,
Batalhas, conquistas e recompensas.
Existe o perigo de querer, viver e sentir...
E o perigo ainda maior, o Ser...
Ignoro o medo e ressurjo diariamente,
Banhada de coragens infundadas,
Em cavalos invisíveis...
Mas triunfante, em vitórias magníficas...
Querendo-te,
Vivendo-te,
Sentindo-te,
Eu sou...

Basta tu sorrires...

(Ilustração de Ivan Raposo)

domingo, 19 de novembro de 2006

Helena.



Que a felicidade te encontre
E te acompanhe eternamente...
Em trilhas de ternura e veludo,
Em acalantos serenos e doces...
E que levantes de ásperas quedas
Nas mãos da dignidade e da justiça...
Que a paz, a alegria e a igualdade,
Desenhem teus caminhos...
Que proves vitórias, amores e prazeres,
E que em cada derrota, dor ou decepção,
Tenhas sempre minha mão, meu calor,
E meu silêncio a te escutar
Por todos os teus dias...
E quando eu deixar este mundo,
Que tu me recebas dentro do teu peito,
Como memória suave a dançar em tuas lembranças,
E transformar-te-ei em meu paraíso,
Abraço eterno,
Meu coração divino,
A iluminar minha última estrada...

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Brevidades.



Hoje entendi que a vida é mesmo muito breve,
E eu, no adiantado da minha,
Talvez não tenha mesmo tempo para ser tudo que sonhei...
Atriz, cantora, comerciante...
E que talvez não dê mesmo tempo para eu ser
Aquela mulher maravilhosa que me prometo todos os janeiros...
Talvez eu não consiga ir àqueles lugares todos que pretendi...
Nem consiga experimentar os sabores que não conheço...
Talvez nunca consiga confessar-te meus segredos.
Hoje me entendi tão limitada nos meus devaneios,
Que talvez jamais conte que te amo...

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Trailler.



E se de repente fosse tudo diferente,
Seu nome, seu rosto, seu beijo?
Minha foto, meu gosto, meu jeito?
E se fosse você e eu, assim, dois?
Se fosse assim, feito cinema?
Nem penso, porque de pensar, sinto,
Meu nome, meu rosto, meu beijo,
Sua foto, seu gosto, seu jeito,
Se fosse eu e você, assim, um...
Se fosse assim, feito cinema...

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Quase nada.


Vou deixar que o tempo me leve
Que resolva sozinho o que fazer comigo,
Com meus erros,
Minhas faltas...
Que ele me leve pois cansei-me de tantas igualdades,
Mesmas tolices, mesmas fraquezas,
Iguaizinhas, em cada lágrima, em cada portão,
As mesmas piedades, mesmas dores,
Não sinto nada novo.
Sou repetição do outro,
Em minhas doenças, em minhas dúvidas,
Desconfiança de que sou mesmo igual, somos todos.
Nada novo, ninguém.
Nem mesmo um novo poema para cantar,
Ou fingir feliz,
Ou fingir triste.
Nada, hoje nada.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Delicado.


Procuro beleza nas coisas do mundo,
Que me disfarce, me distraia,
Das dores dos meus espantos,
Da feiúra das minhas verdades...
Aquela beleza redentora,
Que me abençoe, me liberte,
Das ânsias dos meus quereres,
Da pequenez das minhas sombras...
Que me faça feliz, feito quem não conheço,
Feito manhã de domingo,
Beijo de porcelana,
Feito sussurro saboroso,
Alento dos dias que me levam...

Foto de Anna Lisboa.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Difícil.


Seus sonhos te denunciam,
Traem, mutilam,
Revelam sua face mais patética,
Inútil diante do que deveria ser a sua felicidade...
No seu débil sorriso ausente,
Gravadas as aspirações fugidias,
Emboloradas, solitárias...
Nos seus distantes olhos fechados,
Os tons opacos de quem espera em vão,
Colorindo uma paisagem morta,
Ofende-me seu sono,
Abafa meu prazer,
Mata-me em vigília...

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Sete.


Curvava-me sobre as graves lições que ele esparramava sob meus joelhos,
Na cachaça banhava sua língua,
Áspera de verdades cáusticas,
Seu olhar, punhal certeiro no horizonte...
Doía-me, esperar seu veredicto,
Doía-me seu silêncio,
Doía-me...
E ele partia, enigma na meia-noite,
E eu, trepidava em minhas incertezas,
Sobrava em meio às brumas,
Restos dos seus cigarros,
Rastros nas encruzilhadas...

domingo, 5 de novembro de 2006

Ilusão.



Sussurras fantasias em meus ouvidos...
Incenso em minha casa,
Sempre aberta aos teus devaneios...

Bailas em meus olhos...
Pirilampo nos meus desejos,
Sempre vorazes de tua presença...

Comovida, assisto ao espetáculo do teu nome,
Roubo teu sorriso, me banho nas tuas cores,
E eu, menos cativa, menos bela, mais vulgar...

Mais um aplauso na platéia dos teus encantos...


Uma foto em três versões.

Foto de Mônica Santos.

Textos de Fred Neumann , Ghiza Rocha e Mônica Santos CONFIRA!

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Laços.


Entrelaçados,
Por acidente da vida,
Ou capricho pessoal divino,
Escravos, imóveis,
Um no veneno do outro,
Atados, estreitos, precários,
Sem fruto, opção, nem horizonte,
Somente um estreito nó,
Estrangulando o que restava de poesia...