terça-feira, 31 de outubro de 2006

Torpor.


Meu silêncio me condena
Transparece o que escapa de mim,
Contemplativos,
Meus olhos se consolam entorpecidos nas vidraças,
Nas estradas,
Sigo engolindo a poeira das verdades que julgava,
Sigo a trilha do que eu apreciava ser
Mas nunca sendo, nunca vendo, nunca provando,
Calada,
Jazem os pensamentos,
Jazem as pequenas vontades,
Vai-se o agora,
Resta-me o depois...


(Foto de Mônica Santos)

sábado, 28 de outubro de 2006

Bis.





Quando eu regressar,
Devo te reencontrar,
E rebeijar-te tantas vezes necessárias,
Que se refaça o destino...
Que o resgate de suas fugas,
Retoque nossa história,
Redemoinho,
Reconsidere os meus sonhos reprimidos...
Quando eu, recomposta de tantos desatinos,
Rebrilharei, feito realeza, feito recreio,
Reflexo encantado,
Num recanto de ti...

(Foto de Mônica Santos)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Cantiga.


Embalo minhas dúvidas
Com cantigas sem respostas...
Quem sou? Debruçada num espelho de palavras,
Fluindo em verbo e sujeito passados,
Desconfiada de minhas intenções,
Alvo de minhas ternas enfermidades
Embalo ainda assim minhas dúvidas,
Com cantigas sem respostas...
Quem sou? Compelida a transformar desgosto em poesia,
Discorrendo sobre o acaso e o desconhecido...
Acuada por hostilidades do destino,
Ao final de percurso nenhum,
Embalo tudo, dúvida, palavra, sujeito, destino...
E faço de mim, a resposta.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

3h00m.


Noites insones,
Olhos estatelados no relógio,
Boca seca de sonhos,
Numa ausência até de lua...
Um interminável incômodo de ossos, carnes e pele,
Acordados...
As mãos tateando estrelas na escuridão...
Os pés frios de caminhos já idos,
A mente desperta costurando idéias,
O resto da noite como batalha,
O resto de corpo que resta...

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Anônimo.


Na memória, todos os tipos de assombro,
Monstros imateriais,
Adormecidos no silêncio, por anos ritmado,
Mistura confusa de loucura e nostalgia,
Saída covarde, velhas formas de castigo...
Insistente em se fazer surdo,
O presente cerrado sob os olhos,
O futuro num café,
Se corresse de si próprio,
Se viajasse por delírios,
Se... se permitisse ao erro,
Mas optou pelo abismo de não estar,
A eterna carência das ilusões...
Preferiu entregar-se ao tempo...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Prece.



Preciso que me ames...
Com mais verdade do que os segredos contêm,
Com força e intensidade maiores do que meus medos,
Que me digas o que nunca te direi,
Faça-me uma realidade jamais sonhada,
Um amor que deixe loucas as Deusas,
Para que minhas horas de mármore,
Ganhem o colorido dos teus absurdos,
Minha língua prove doce licor,
Sob seus beijos alucinados,
Minha maré transborde de júbilo,
E com sua presença encantada,
Eu possa enfim experimentar a alegria de Ser.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Gêmeo.





Cega, prisioneira de lugar-comum,
Entrego-me ao seu lento veneno,
Dói-me a carne ver-te apenas,
Dói-me tudo e toda,
Ao imaginar o gosto oco do seu sorriso,
Sua cama fria de asperezas,
Sem conto, sem noite, sem seda,
Atônita, estátua em gelo negro,
Assisto ao seu pseudo-funeral...
Dói-me o brilho que tiveste,
Dói-me quem não foste na minha vida,
Ao abandonar uma página ou um cigarro,
No conformismo de fenecer,
Sem segredo, sem expectativa, sem ti,
Contigo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Vez em quando...


És lume na noite,
Vago, vindas e idas,
Esporádico, faísca e salto,
De carona, me leva em seu rastro alado...
Fênix, majestade, devaneio...
Criança, sorriso, demônio...
És vôo e pouso,
Despertar, cintilar e atentar,
Vislumbre de cinzas ainda ardentes em mim...

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Em tempo.


Não posso esperar...
Nem por promessas, nem por beijos,
Nem por sol, chuva ou primavera
Nem por sinais, sorrisos ou senhas
Não tenho mesmo muito tempo,
Porque já me transbordei em fantasias e quereres,
Afoguei-me em palavras e doçuras,
Mutilei-me demais em ciúmes e temores
E você não veio...
Não posso esperar,
Nem por aviões, ou cartas,
Nem por fotografias, rosas ou fumaça,
Nem por perdões, lágrimas ou canção...
Não tenho mesmo muito tempo,
Porque já desisti do seu relógio,
Cansei-me feito muleta pesada,
Recompus-me em vôo e liberdade...
E já não estou...

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Opção.


Prefiro que não me vejas,
Para que não me desnudes,
Não me assaltes desse presente ao qual me ancorei,
Para que não descubras as horas que contei,
Que não me vejas assim tão pálida e tola,
Tão entregue às minhas mentiras,
Tão serva das minhas obviedades...
Se eu pudesse perder-me um minuto antes de te reencontrar,
Talvez não estivesse assim,
Escrevendo versos isolados de mim...

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Dreams.


Crio retiros onde posso me esconder
De felicidades infundadas,
Tristezas vulcânicas,
Minha lava subterrânea,
Onde eu, clandestina nessa cidade encantada,
Disfarço-me de clown,
Alimentada por fortuna alheia,
Sustentada por antropofagia indigesta,
Invento damas e cavalheiros maravilhosos
Personagens de um futuro admirável
Que eu me prometo para esta noite...

domingo, 8 de outubro de 2006

Zen.



Busco minha harmonia,
Serenando em suspiros cegos,
Voando em abismos internos,
Pensamentos ateus,
Pra defender-me de ilusões,
Isolar-me em gota silenciosa e cristalina,
Como a verdade,
Indestrutível e imperial,
Como meus nobres castelos de sons,
Nessa vida que aos poucos me cala...

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Tempestade.


O vendaval da última noite arrebatou-me
Numa tempestade de memórias e areia,
Em labirinto de nomes e lugares,
Mapas, invernos e abrigos,
Trouxe-me fotografias, sons e sinais,
Em assovios cortantes...
As lembranças tilintaram nas vidraças,
Invadiram o meu quarto,
Num misto de feitiço e fatalidade,
Venosas,
Questionadoras,
Provocaram-me e repousaram
No baú distante de que fui um dia...

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Feroz.


Existe em mim uma espécie de bicho,

Nada sensual,

Áspero, rude, eriçado,

Nada belo,

De uma selvageria alimentada da minha alma esquecida,

Sustentado pela essência das coisas em que creio

Rejeitando as abominações desse mundo castrado,

O eu não-domesticável, não-controlável, não-manso...

Apenas eu, do meu jeito mais cru,

Cravada em meus defeitos,

Os dentes arreganhados aos meus moinhos,

As pupilas dilatadas aos meus mais íntimos pavores,

Os pêlos arrepiados,

Num emaranhado entre o ódio e o amor,

Salivando meus segredos,

Passeando no deserto dos meus prazeres...

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Remédio.


Estava triste feito vaso vazio,
Tão sem brilho, sem gosto, sem cor,
Sem sono, sem ilusão, sem dor,
Sem desejo, sem graça, sem tempo,
Sem cheiro, sem hoje, sem ontem,
Sem colo, sem barco, sem solo,
Tão sem mim...
Que precisei de ti...