sábado, 30 de setembro de 2006

Primavera.


É sopro colorido,
Véu alado que rodopia, delicadíssimo
Entre cabeças e flores, vertigem
Êxtase de delicadeza e contentamento
Pousada em meu jardim
Transformando minhas distrações em regalo
E desmaia repentinamente...
Consolada em pétalas,
Levando consigo a derradeira mocidade,
A última brisa da tarde.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Fábula.


Olhei-me no espelho,
Como quem vê peixe,
Ou amostra de pano...
Apenas colhia com o olhar
Os traços que a vida me imprimiu,
E hipnotizada por tão intimidante imagem,
Fingi que me não reconhecia,
Jamais vira criatura tão estranha,
E velha.
E fria.
Irreal, talvez...
Então inventei uma pressa qualquer
E abandonei-me, trancada em moldura de vidro...

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

00h00m.


A noite é senhora da minha feiúra,
Condecora minhas fraquezas...
E perdida entre alarmes e suores,
Rastejo em solo úmido,
Sem norte, sem nome,
Caçando minhas senhas,
Lambendo minhas patas,
Pra me proteger da escuridão,
Escondida dos meus silêncios,
Foragida dos meus medos...

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Multiplicidade.


Hoje sou várias...
Enxurradas, turbilhões, tempestades,
Diferente do que inventara,
Perdida no que pensava ser,
Eu era e já não sou.
Virei uma incrível novidade,
Aterrorizante,
Lindamente assustadora,
Gigantesca, se comparada a ontem
Incógnita densa de amanhã...
Vou assim me vasculhando,
Traçando em poesia um mapa novo,
Para que eu não me perca novamente,
Não escape de mim.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Amor.


Esta foi a minha contribuição para o livro "O que é o amor", projeto de http://anjonovalis.blogspot.com/ participem amigos blogueiros!


O amor é um boneco dourado,
Brinca e colore afortunadas crianças,
Que se alimentam de beijos embrulhados em papel,
Desenhados com caligrafia perfeita,
Perfumados com desejos e saudades.
Crianças que, ao findar o baile,
Já sem canções, nem promessas,
Cansadas do encanto perecido,
Abandonam-se em versos e recortes,
Esperando por nova serenata,
Ou um poema,
Que as tornem novamente infância,
Douradas outra vez...

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Sussuro.



Cuidado minha flor...
Essas mentiras de veludo,
Cansam minhas velhas traças...
Não me perca em motes baratos,
Em conquistas repetidas...
Acolha-me apenas se puderes,
Se tiveres ainda pureza,
Ou mesmo estrofes de amor,
Onde eu não seja apenas figura de linguagem,
Mas seja tua língua,
Morna,
De seda,
E verdadeira.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Precisão.


A carne de que sou feita precisa de sangue grave
Daquele, vindo de vulcão profundo,
Do meu ser mulher,
Do meu ser amante,
Aquarela violenta, que me faz caçadora dos meus suspiros,
Traficante das minhas emoções...
Penso que gosto de amar,
Mas não gosto.
Penso que gosto de viver,
Mas não gosto.
Penso que penso,
Mas não.
Faço-os somente porque preciso.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006


Meu Deus se alimenta das minhas dúvidas
Cresce em mim dentro de cada lacuna não preenchida,
Fortalece-se a cada pergunta não respondida...
Deus toca-me diariamente,
Em aparições em meu portão,
Em cartas, beijos, desenhos,
Em telefonemas mágicos,
No sorriso pousado no meu colo,
E assim, a cada dia,
Descubro pequenos grãos,
As vírgulas das múltiplas verdades do universo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Bem-me-quer.



Nas caprichosas pétalas do destino,
Encontrei-te, gêmeo em buscas e amores incertos,
Encontramos-nos entre copos (esses sinos boêmios...)
E acordes (esses feitiços sustenidos...)
Bebendo o “era” e o “seria”,
Nossos desejos, segredos e riscos...
No perfume suave que me beija,
Na saudade que plantas em todas,
No teu jeito de ser infinitamente belo,
Eu descubro tudo que “é”
Nesse bem-me-quer onde o mal nunca me escolhe...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Revelação.


Hoje a lua arranhou o mar,
Abriu uma trilha que atropelou minha sacada,
Silenciou meus sonhos,
Pôs-me em pé,
Abismada,
Observando o clarear dos meus olhos,
Que, enfim, viram o amanhecer...

sábado, 2 de setembro de 2006

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Escrevia-te cartas de amor,
como a chuva que, distraída,
Esquecia faíscas em minha vidraça...
Mas fui tomada por tamanha delicadeza,
Que acabaram-me as palavras...