terça-feira, 29 de agosto de 2006

Pedido.


Gostaria de parir luz
Não sem dor alguma,
Senão me faltaria a cicatriz almejada,
Também não sem suor,
Para que não me falte um certo brilho.
Mas que não haja monstruosidade interna,
Ausência de algo,
Ou excesso de tudo...
Que me dessem apenas o necessário
Para estar completa, feita.
Para que eu possa ser somente eu.
Eu, carne, sangue e músculos
Premonições, sonhos e enleios
De palha da costa e espada de cobre...
Satisfação, de agricultor e fruto
Plenitude de Deusa e néctar
Perfeição em minha limitada humanidade...

sábado, 26 de agosto de 2006

Desigualdades...



Meus desejos são feito corrosão,
Ferrugem maldita
Esfarelando-se na minha rotina,
Nas minhas ilusões,
No meu vestido...
São pegadas em calçada incógnita
De passeio algum...
Cicatrizes engolidas por cadernos secretos...
Bilhetes no espelho do passado,

Meus desejos são a nascente das minhas histórias não contadas...

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Duelo.


Éramos os extremos de um duelo,
Eu e aqueles dois selos imensos,
Fixos nos meus descrentes olhos...
O silêncio pastava lentamente no meu peito,
Vapores do dia,
Vapores de mim,
Medo, fascínio e ternura...
No couro da deusa,
Gravou-se meu pasmar, meu deslumbre,
Sob suas patas jaziam meus anos urbanos
De suas tetas, jorrava meu renascer
Estava refeita.

domingo, 20 de agosto de 2006

Rastro.


“... êee vida malvada, abrem-se muito as estradas que levam à nada...” (Almir Sater)


Perdi-me em centenas de poentes
Armadilhas a roubarem meus olhos
Tantas cores, tantas camas,
Descompassos no meu íntimo,
Abriram-se janelas,
Escancaradas de efêmeras fábulas...
E flores,
caminhos perfumados de nomes diferentes,
Desejos em papeizinhos
Devorados pelo vento
Nos ardentes veludos
Cantigas de amigo, de amor e de adeus...

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Post it.


Estou crua.
Feito ferida esfolada,
Tinta fresca de carência
Vinagre vermelho,
Ardido, brilhante, estrondoso.
Estou humano, mortal
Compromisso urgente,
Sem disfarce nem chá,
Vinho seco em taça rápida,
Visita lá no portão,
Recado gravado,
Um beijo e até logo.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Sorvendo.


Quando me engoles com teus pequenos olhos,
Abraçando minha alma inteira,
Esqueço-me de que o relógio tem me fugido das mãos,
Desde então não sou mais eu,
Não sou mais única.
Sou rio lácteo por onde navegas tua essência
E me amarras com teu espírito imenso e forte
Não me importa se me falta o repouso,
A vaidade ou a volúpia,
Tu me levas inteira, de assalto,
Gravas em meu rosto o sorriso mais puro...
Sopras no meu peito o calor da tua vida...
E me fazes tua mãe.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Patchwork


O mundo e seus retalhos,
Quentes de cruzeiros e canhões.
Frios, de pólos e expirares.
E destoantes.
Pacíficos. Sangrentos,
Rios. Água, de beber e de lavar.
Sangue de arrancar e de doar.
E contenções.
Mapas de excursões e de ataques.
Números de lucro e de circo.
Moedas de corromper e conquistar.
E corpos de beijar, corpos a encontrar,
Línguas que se unem e separam.
Sexos tantos.
Leis de imposição e salvação.
Ou caos.
O mundo e seus retalhos,
costurados com a linha do absurdo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Felicidades.


No arrasto das chinelas,
No eco das panelas,
No assobio das telhas,
Entre o arrepio dos rasgos das roupas,
E na solidão daquela distância,
Percebeu-se feliz,
Bem feliz.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Arrastão.


A galope, no lombo do mar,
Fui pega pelo Arrastão,
Teia implacável...
Captura vítimas distraídas do presente,
Lembranças profundas,
Suspiros e pesares...

Aprisionada no emaranhado da vida,
Enroscada em cavalos marinhos,
Enfeitada por peixes lilases,
Entrego-me assim,
Feito jangada sem dono.
A ser devorada pela saudade...

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Partidos.


Estamos de partida,
Com bilhete, plataforma e horário
Rumo ao risco de abandonar-te
Deixar-te a sós com nosso silêncio e pedaços

Partiremos,
Eu, devaneio e desejo
Eu, amor e vazio,
Eu, chuva e suspiro.

Em compasso de tango sem dama,
Em vôo de folha de outono,
Em eco de copo vazio,
Em vagão de trilho algum.

Partidos.