sexta-feira, 30 de junho de 2006

Inverno.



Nos meus invernos particulares
Refugio-me em cores lindas,
Abrigos sonhadores
Onde busco parte de mim,
Esquecida em canção e retrato

Espero por toda fruta, toda lã,
Todo vendaval
Para repor o que se era
Toda folha, toda lenha,
Toda tarde
Para me esconder dessa ausência
Que tu insistes em me condenar...

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Cabeça.


Sepulcro em mim,
Porta-jóia das riquezas escondidas,
Que espera a chegada da beleza,
Do gosto de mel prometido...

Baú recôndito e desacertado,
Exilado, de alma apreensiva,
Que espera pela cura de si próprio,
Pelo passeio inevitável, arrebatador de males.

Engenharia cinzenta,
Com vista panorâmica sobre a carcaça,
De tão iludida pelas brumas de si própria,
De tão eternamente devota de seus prodígios,
Torna-se tão efêmera, tão prolixa, tão dispensável...

Sonhos.


Sonhos são visões transbordantes da alma,
Saem dos meus olhos e bóiam pelo quarto,
Ao som de flautas, envoltos em brumas dançarinas,
Brincam com meus desejos...
Cortejo encantado de imagens...
Atenciosos bordados,
Louças douradas, onde me sirvo de fantasias...
Arco-íris em flor,
Vapores azuis,
Imagens surreais de mim, me disfarçam de realidade...
Viajem de trem encantado,
Rumo a um despertar frígido, em manhã de inverno...

terça-feira, 20 de junho de 2006

Ícaro.


Um romântico não se constrói.
Ele emerge entre sons e plumas,
Sobre poemas e cores.
Não decide amar ou não amar...
Ama.
Ou não.
Prisioneiro de seus segredos e silêncios,
Olhos sempre abertos
A todo vislumbre,
Todo sinal,
Poros à toda brisa...
Ele repousa sobre seus devaneios e faz-se assim,
Criança com seus brinquedos diários,
Entretido com desvarios e engenhos...
Acordado, sonha
Dormindo, sonha
E de tão sonhador acha-se real
Acreditando que ninguém pode acorda-lo...

sábado, 17 de junho de 2006

Sabores.


“depois da queda o coice...”
(Herbert Vianna)

...E só então aprender a voar.
Para além das minhas tão restritas fronteiras,
Reflexo de cisne do falso pato,
Descobrir-me tão maior
mais excitante,
Descobrir-me imensa,
Assaltada por coragem própria e incomum
Vencedora das minhas pequenezas,

Com sabor de tripúdio particular,
Posso guardar-me numa gaveta
Ou desfilar em passarela encantada,
E posso nada fazer.
Fui tocada por uma espécie de santo,
como beato cego,que crê no que só sentiu
E nada viu...


Apenas inflei, e me percebi distante de tudo que eu era,
Distante de todos...
Abandonei-me...
Deixando que os êxtases dessa liberdade me guiassem
em novíssimo paraíso

Permaneceu-me apenas um gosto de café...

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Fastio.


Cansou-me essa guerrilha interior,
Esse galopar desesperado,
em retirada,
Nas repetidas fugas diárias...
Cansou-me esse deslumbramento de narciso avesso,
Essa eterna bagagem pronta
Assombrada com meus terríveis souvenires
Cansou-me essa clemência,
Essa conivência íntima,
Condeno-me a esta lassidão,
Esta jaula de compactações
Onde não mais alarmar,
Não mais carecer,
E sim confluir,
Repousar no que imutavelmente sou,
Faustosa em meu fastio.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Reprise.



Eis me aqui,
Num descontrole secreto,
Entregue aos meus eternos vícios e mazelas,
Serva total de meus desacertos,
Capturada em teia própria,
De aço,
Sucumbível às minhas sentimentalidades...

domingo, 11 de junho de 2006

Nascida.


Esperar que ele volte,
Encantar-se com o que não se vê
Tocar o que nem sempre é sensível,
Sonhar com o impossível,

Asas da alma...

Provar novo sumo,
Abrir outra caixa,
Pular em abismos perfumados,
Dança colorida de amanhã,

Viver é fantasiar-se de ilusões...

sábado, 10 de junho de 2006

Agudo.




Falar de mim parece tão fácil,
É como abrir portão de casa,
Um querer manso,
Mas falar de ti, me arranca a língua,
Me corta inteira,
Me esparrama entre sem sentidos,
Entre cem despedaços
Faz toda palavra virar cinzas
Cada verbo virar saudade

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Spy.


Assisto aos seus passos,
Espectadora espiã de cada querer,
De cada intenção.
E brinco de classifica-la,
De acordo com meu humor:
Ingênua, óbvia, criança,
Leve e repetida,
Em seus sonhares e gastas utopias
Ou rival, monstruosa,
Inimiga homônima,
Declarada e desnecessária,
Na sua existência fadada a círculos de boca e rabo
Subida e descida,
Roda da fortuna,
Roleta do destino que observo...

...E estalo os dedos aguardando o próximo capítulo...

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Percurso.


Acordei repleta de mim
Transbordava todo meu íntimo,
Exalava todo meu cio
Deixando pistas para que me seguissem,
Inundei as casas, salivei todas as palavras,
Desagüei em todos os olhares,
Ocupei cada vão, cada chão,
Nada sabia,
Nem de mim, nem de ninguém
Apenas invadia,
E arrastava comigo tudo que fosse bom,
Tudo que fosse belo
E tudo aprendi,
Envolvendo-me em cada cor, perfume e som,
Tornando-me assim melhor,
Mais diversa
Fugitiva de minha nascente...

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Curtida.




Buscava um sabor do interior
Interior da terra, do boi, e alma...
Buscava aquela cerca, queijo e mato.
Interior do rio, do ovo, e sonho...
Apareceu-me no verso sentado em soleira,
Nas palavras violeiras de caboclo rimado,
Em tranças de cabelo cantado...

Nos olhos da coruja estrelada
Em noite de fogueira adoçada,
Tornei-me caipira enraizada...