quarta-feira, 24 de maio de 2006

Testamento.


Deixo aos meus tenros anos
Todas as cores que me tingiram a memória,
Preservadas há décadas em baú alinhavado em saudade,
Aos meus sonhos de menina,
Todos os cadernos não escritos
Palcos de doces letras, verdes fantasias,
Aos meus imaturos amores
Todos os sabores que me banharam a língua,
Marcados por salivas ferventes em boca mentirosa,
Aos meus efêmeros eternos,
Todo os “sins” não ditos,
Provas de amor não sentido,
ingênuas tempestades,

Aos meus desafetos,
Toda minha melhor parte, que insisti em ocultar,
Mascarada em frases mal cortadas,
Escudos de alma fragilizada, em crescente decadência,
Às minhas crenças, toda minha pureza
E meu perdão por pseudo-decepções,
gratidão por toda graça não concedida,
Aos meus ídolos, todos os olhares, todos os brilhos,
toda a imortalidade,
para que eles continuem estampados nas mentes de tantas outras de mim que virão,
Aos meus pais, tudo de mim que não fui,
Tudo o que lhes faltei,
Para que assim possa talvez lhes agradecer o ser eu,

E que fique tudo assim, distribuído,
senão de maneira justa,
Da justa maneira que encontrei de me difundir,
Para que eu nunca me ausente
Meu bem nunca se acabe,
E meu mal nunca se esvaia.

4 comentários:

Sonia disse...

Fiquei comovida, Giselle.

M. disse...

Eu gosto muito destes seus poemas últimos, mas acho-os um pouco atormentados. Precisa de ir passar uns dias na casinha branca, que eu já pedi ao dono delas e ele achou boa ideia... ;-) Grata pelas palavras que deixou na nossa janela sobre este mundo que nos espanta, nos entristece e nos anima também. A todos nós.
Um beijo.

Liginha disse...

Muito, muito bom mesmo esse texto! Eu tenho mania de reler frases, trechos, poemas que gosto. Esse seu já tô na terceira 'relida'. ;-)

Ghiza Rocha disse...

Sônia, que bom que consigo te tocar... Viram que consegui até abrigo na casinha do Fotoescrita???
Liginha, que bom que vc gostou, é sempre agradável elogios de quem não tem a obrigação de nos agradar, rs*