domingo, 26 de março de 2006

Medo.


O medo é o lugar onde moram todas as coisas que superam o que sou.
Lá vivem as frases que eu não disse,
As obras não feitas,
O que não conquistei,
Os beijos que não dei...
Tudo de que fugi
Por isso fico aqui,
de longe,
Mas às vezes eles me mandam postais...

terça-feira, 21 de março de 2006

Fuga.


Minha cabeça sobre suas pernas,
Qualquer paisagem me hipnotiza,
Não com olhos pousados no romance
Mas como cama pacata que silencia
Silêncio que furta o que nem fará falta
Deixa a carne gelada
Depois leva nos teus passos
Parte de mim que eu nem conhecia...

segunda-feira, 20 de março de 2006

Descompasso.


Naquele dia
Alguma palavra desafinou
Algum dicionário se alterou
Falei e ninguém entendeu,
Escrevi, ninguém decifrou...
Quando me calei, fui apontada,
Como aberração cuspida no altar dos homogêneos.

Virei um aborto,
Um tiro infeliz que saiu de arma falida,
Ponto final daquilo que ninguém começou,
Vaso inútil no canto da sala,
aos olhos daqueles prisioneiros de cárceres emplumados, cegos pelos seus espelhos particulares,
que,
cimentados em trono obtuso,
Aguardavam meu próximo ato.

Espera.


Esperar é como enraizar-se em si próprio.
Sente-se uma imobilidade,
formigamento dos minutos mergulhados em lama
Aceita-se a plenitude de um poder alheio,
Supremo, que te faz impotente e chucro.
Faz de seus olhos meras janelas,
inúteis na parede da sua carne atada.
Rouba sua voz com mão gigantesca, tirana
que te transforma em conformismo de filho em luto
Anestesia seus desejos até que só lhe reste a alma,
Que nessa hora, esta já se transformou em ilusão,Cuspe de ateu.

terça-feira, 7 de março de 2006

Abrupto.


Meus olhos interrompiam aquela tarde dormente
Os cinzas que o céu insistia em me impor pareciam filtros insuficientes...
Faziam-me mais contraste, mais brilhante...
Eu era feita de faísca e sobressalto naquele cenário paralítico de pessoas automáticas...
Não precisava mais de autoviolência,
Nem cigarros, nem ônibus.
Não precisava mais de telefone, novela, ou comida.
Ele gostava de mim.
E o céu de tão desnecessário,
escorreu tarde abaixo.

quinta-feira, 2 de março de 2006

A queda.


Sinto uma falta de ar que paralisa...
É com sofreguidão que dou mais um passo,
carrego comigo os olhos arregalados de tudo que me cerca...
Duas mãos, dois joelhos,no solo,amparando a perplexidade do “achar-me”.
Ardem-me todos os poros,o sangue se atrasa...
Assusto-me...
De como me estranho,convidada formal de jantar requintado, à quem nunca sei o que servir...
Sinto uma sede!
Meu corpo transpira e escorre pela minha pele,por trás dos joelhos, a firmeza e a coerência que me faziam fortaleza admirável...
Hoje sou apenas equívoco.
Tombo na via pública.
Quedas inevitáveis...

quarta-feira, 1 de março de 2006

Pierrot.


Na noite da alegria,
fiz-me brinquedo de papel,
Confeito aéreo que decora o céu
Paetê costurado em firmamento...
Numa noite onde só me restavam
As fantasias e enredos da alma
Agarrei-me nos teus serpentinos cabelos
Pedindo-te que me embalasse nos pulsares sanguíneos de nós dois...