sábado, 30 de dezembro de 2006

Um dia de José Clemente Divario.

Esta postagem, intitulada "Um dia de José Clemente Divario", conta um dia deste ex-executivo carioca em três blogs. No blog do Fred Neumman, foi contado o dia das 7h00m às 15:00. Aqui, conto o período das 15h00 às 23h00m. Em breve, o período de 23h00m até as 7h00m, terminando o dia do Zé Clemente no blog da Monica Santos. Eu não me sinto muito à vontade em narrativas, mas topei a brincadeira desses amigos aos quais estimo muito (e que têm blogs legais à beça!), leiam a estória, conheçam os blogs e... Divirtam-se!

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15h00m: Modelar Rita em argila era bárbaro, “desejar a mulher do próximo”... Pecado. Desejar e modelar em barro seus seios, coxas, alisar-lhe as costas com dedos molhados em água, criar-lhe cabelos, descobrir-lhe o pescoço, tudo isso lhe aumentava a culpa. Ia dando forma ao bloco de argila, e aos poucos o que antes era abstração, agora era palpável, Rita ali, no Divã Rio, em suas mãos, úmida, em deleite, pronta para passear num dos seus barquinhos. Sentiu-se constrangido em não modelar Lucio. Mas Lucio podia esperar, estava trabalhando no mercado de peixes...

16h00m: Café. Café tem o poder de fazer o tempo passar suavemente, porém, ligeiro...
Café. Zé Clemente não pensa mais em descafeinados, em adoçantes, nada disso. Apenas café, que agora é puro, sem açúcar, pelo prazer do grão... Sua solidão ecoa na pequena xícara e se alastra na imensidão da mesa... Imaginava-se bebendo os beijos de Rita... Quentes, fortes, esparramados pela boca...
Quando vivia no Rio, não tinha tempo para imaginar beijos, nem saborear café. Ele “tomava cafezinho”; quem saboreia café precisa preparar a xícara, a água (não ferva a água do seu café) o pó, depois coar sem pressa (e sem ficar remexendo tá?) para somente em seguida, sentar-se e deliciar-se. Zé Clemente saboreava a fantasia de beijar Rita...

17h00m: Zé Clemente sabe que o mercado de peixes só funciona até as 18h00m e resolve arrumar-se para ir até lá. Não queria apresentar-se com um aspecto muito desleixado (vaidade era amiga distante ultimamente), porém, pela primeira vez em muitos anos, pensava em fazer-se melhor. Ou pelo menos “parecer” melhor.
Espelho é um objeto que todos nós temos pelo menos um em casa. O que difere um espelho do outro é a crueldade. Espelhos revelam rugas, cabelos brancos, manchas na pele, quilos a mais, amarelo nos dentes. Cruéis... Revelam culpas, arrependimentos, punem, interrogam, apontam o dedo na cara do sujeito. Mas o espelho do Zé, hoje, havia saído. Ou estava dormindo. Ou estava mudo. É! O espelho do Zé ficou mudo de repente. Não disse se ele era ridículo por estar se arrumando para ir ao mercadão, se era ridículo apaixonar-se por uma desconhecida, se era ridículo conhecer seu “rival-platônico”, se eram ridículos seus chinelos de borracha. Nada. O espelho do Zé calou, deixando que este saísse em busca de algumas tainhas, procurando quem era Lucio que prendera Rita.

18h00m: O Mercadão já estava quase vazio, só um pessoal lavando os grandes tanques que comportam os peixes, lavando o piso, e o chão era um grande emaranhado de mangueiras d’água, azuis, amarelas, laranjas... O cheiro de peixe fresco no ar. É diferente de cheiro de peixe na cidade grande. Peixe nas feiras do Rio de Janeiro, nas feiras de São Paulo, cheira diferente, é cheiro de peixe sufocado, abafado, peixe que não agüenta mais ser peixe. Ali não, o peixe era peixe e fim.
Zé Clemente perguntou a um conhecido seu, dono de um pequeno boteco freqüentado pelos nativos da região, quem era Lucio, mas no mesmo instante em que fez a pergunta, avistou Rita, ao lado de um pescador, alto, uns 50 anos, já fechando seu box no mercado. A prefeitura havia feito umas divisórias para tornar o mercado dos peixes mais organizado, e quem se registrava na prefeitura com imposto, alvará e tal, podia ocupar um dos box equipados com bons balcões, esgoto, infra-estrutura, e publicidade nos livretos turísticos do vilarejo. Lucio era dono de um dos box, cansado de vender peixe debaixo de sol, tinha agora alguns confortos que sua experiência e seu meio século de vida proporcionou. Rita avistou Zé, e acenou-lhe com a mão, chamando-o para perto. Apresentou-lhe o companheiro, Lucio, que o cumprimentou de modo nem simpático, nem rude. Cumprimentou-o como quem olha para um sapo. Curioso, mas nada encantado. Prestando atenção, mas dividido entre a discrição pessoal e seu modo rústico de fingir... Afinal esses quatro anos não deixaram Zé Clemente com cara de nativo e nem preservaram seus traços cariocas... Zé era um cara sem identidade, meio yuppie, meio hippie, não parecia surfista ainda, mas não era um cara urbano. Era um zé. Mas um Zé que Lucio nunca tinha visto antes. Um Zé que fitava Rita com olhos de Rodin, que Lucio não faz idéia de quem seja...

19h00m: Os três à beira-mar, os três costurando assuntos em mesa de bar. Conversar num bar é tarefa fácil, tudo pode ser assunto. A comida servida, a temperatura da cerveja, a temporada, os turistas daquele ano, tudo poderia ser assunto; menos os olhos profundos, com marcas de gravura, em metal cortante, azul intenso que afogava Zé entre um gole e outro de cerveja, entre um raio de sol fugidio e um grilo chegando... Tudo poderia virar conversa, exceto aquela fome de Rita, de engolir Rita e todos os anos de sua vida, Zé estava faminto e não podia disfarçar... Lucio ainda olhava Zé, desconfiado, mas educado, desconfiado... Zé não parecia mais um sapo, agora parecia um Homem...

20h00m: Zé aceitou o convite de Rita para ir jantar em sua casa. Lucio e Zé Clemente lado a lado pelo calçadão, Rita mais à direita, num silêncio de quem está a preparar delicadezas... Rita sente uma atmosfera de paixão no ar, aqueles ares de sua mocidade, onde calada, em segredo, observava disputas masculinas, sedentas pelos seus olhares... Era bom sentir isso novamente... Lucio grave, sério, treinando um comportamento seguro, onde não transpareceria o medo de que Rita estivesse admirando Zé Clemente... Lucio era um homem interessante, mas assustador. Enorme, de morenice salgada e brutal, com força de mar grosso, contrastante à sua doçura de maré mansa, seu coração bondoso. Cavalheiro com as mulheres, herança da educação católica, rígida e portuguesa. Chegava a ser feio quando preocupado. Então lançava seu olhar sobre Zé, como quem procura um não sei quê não sei onde... E Zé procurava em Lucio onde morava a paixão de Rita...

21h00m: A casa de Rita e Lucio era pequeníssima, o que tornava a intimidade ainda mais sufocante, a cada respiração se esbarra em um porta-retrato, ora Rita sorrindo, ora uma blusa cochilando numa cadeira, um livro cravado num canto... Um chinelo de Lucio no caminho, flores na janela. Pretendiam preparar algo rápido, afinal já tinham devorado bobagens no mercadão, era só um prolongamento da conversa, um modo de esticar aquela noite densa, uma tentativa de aproximar seres tão distintos, Lucio e Zé. Ela estava confortável, afinal, Zé era apenas um recém amigo, daqueles que não se tem nem ao menos memórias para preencher as horas com conversas de recordações... Zé era para Rita, um universo a ser descoberto, ela que já dera tantas voltas pelo mundo, agora servia de inspiração, alimentando a imaginação de Zé; cujos olhos faiscavam a cada frase, a cada gesto daquela estrela noturna...

22h00m: A mastigação traz aquele silêncio obrigatório, terminada a comida, uns camarões, mariscos e uns pãezinhos regados vinho gaúcho, fica aquela sensação de nada a ser feito... A quem é dois, resta-lhe o amor e a meia garrafa de vinho, mas a três... Salvo os amigos de Baco, a três não se pode fazer muita coisa... Para um jogo de tranca seria necessário quatro pessoas. Três pessoas, sempre sobra um.
Lucio, preocupado com as conversas paralelas entre Zé e Rita pensa num modo de distraí-lo, um modo de afastá-lo de sua amada. O jantar todo ficou em torno das conversas entre Zé e Rita, Lucio, homem do mar, caladão, recolhe-se junto com o pôr-do-sol. Lucio dorme cedo, acorda cedo, mas naquela noite estava a postos, como quem vigia farol... Convidou Zé para ir conhecer seu barco, a voz grave de Lucio rasga uma frase inacabada de Rita: “Queres ver meu barco? Vou botar armadilha pra siri, se quiseres...” Zé quis. E muito, afinal era uma chance de desvendar o que tinha aquele homem que prendia uma mulher como Rita... E Lucio seguiu abrindo caminho pelo quintal a beira mar, imaginando o que poderia fazer com Zé, ser simpático? E se ele passasse a vir diariamente à sua casa? Se fosse rude, desagradaria Rita... O que conversariam? O barco surge numa fenda iluminada pela lua, do telhado de zinco no rancho onde Lucio guardava o barco, limpava seus peixes, guardava redes, tarrafas, lanternas... O barco, Lucio e Zé...

23h00m: Hora de prosseguir a estória em outro blog...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

...


É tão estranho.
Sentir-me excluída de ti,
Ver-me alheia ao teu colo,
Embalar a mim mesma,
Contar-me histórias de dormir,
Para não sonhar com teus terrores,
Tuas acusações e armas...
Cuidar-me,
Para que tu não me derrubes nos primeiros passos dos meus quereres...
Alimentar-me do barro da terra,
Para não morrer de fome defronte teus seios,
Banhar-me de luz e sons adotados,
Para não definhar na escuridão dos teus lamentos...
Aquecer-me com meus ruídos,
Para não morrer no teu silêncio,
Ver-me crescer e não me reconhecer em ti,
Vestir-me de tudo que não conheci...
É tão estranho.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

BOAS FESTAS!!!


MEUS AMIGOS,
COMPANHEIROS DE BLOG,
DE POESIA E DE VIDA,
RECEBAM TODO O MEU CARINHO!!!
QUE EM 2007 POSSAMOS PROSSEGUIR JUNTOS,
PARTILHANDO SENTIMENTOS,
PALAVRAS E BELEZA!
Um grande beijo a todos e aceitem estas rosas do meu jardim!
Ghiza Rocha

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Tempo.


O Tempo me fez,
Embalou-me e me levou,
E eu, em rodopios, o fui seguindo...
Cambalhotas e canções de infância,
Mostrou-me todas as coisas,
E eu vendo somente o desejado...
O Tempo me conduziu,
E eu, entre fitas, os fui laçando;
Estradas e desejos,
Homens e lugares,
E só amava o que inventava...
O Tempo me ensinou a vida,
No açoite e na rasteira fui domada,
Entre lágrimas e levantes,
Amanheceres e poentes,
Eu seguia e seguia...
O Tempo me gerou,
Dorida, quebradiça, mas voraz,
No Tempo pari,
Fiz-me Tempo,
Também me fiz casa, leite e berço,
Nele moro, como e durmo,
Nele sigo, pereço e espero,
O Tempo de não mais lições,
Não mais caminhos,
Não mais fome, nem espera, nem luar,
Somente ele,
Jazigo de tudo que era...
De tudo que ainda será...
Berço de tudo que eu seria,
Jazigo de tudo que eu tentei ser...
Tempo do que fui e do que não sou...

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Acaso.


Não importaria mais
Ser ou estar,
Ir ou vir...
Não faria mais diferença
Se ele a amaria ou não,
Se ele voltaria ou não,
Ela se descobriria em profundo abandono,
E seria indiferente,
Ter ou perder,
Poder ou querer,
Meramente relativo e ela nem se lembraria mais disso,
Já não lembraria se o jantar seria para dois ou um,
Ou nenhum...
Não faria mais diferença,
E apática ela ainda seria, estaria,
Iria e viria,
Não importando a quem ele amaria,
Se amaria...
Se amaria e se voltaria
Descobrir-se-ia diariamente,
Mas tanto faria,
O que teria já perderia,
Não poderia, mas não mais quereria,
Mas também não se lembraria disso...
E também não faria a menor diferença...

domingo, 17 de dezembro de 2006

Prenda.



Qual palavra me obedece...?
Mansa, retrato fiel do que te sinto,
De uma doçura que inunde sua alma,
E te alimente com beijos, mel e meu nome...
No túnel da sua boca,
Enlace sua língua com carícias,
Cores, melodia,
E verbos de amar...
Qual palavra inundaria minhas frases com verdade,
E te faria enternecida, perfumada e minha...
Em qual pintura estaria seu sorriso,
Mais aberto, puro e meu...
Qual sonho me seria permitido,
Onde eu não me fizesse escravo,
Platéia de você, cansado de cobiça,
Mas inteiro, acolhido e amado...
Qual de mim devo ser,
Para que me receba, não indagação,
Mas certeiro, vermelho e quente no seu peito...
Em quantos silêncios te falaria
Mais e melhor do que essa tosca e rústica
Tentativa de fazer-me poeta...
Eu, que nem nome, retrato ou mel possuo,
Venho sem cor, sem verbo, sem verdade...
Eu que não sonho, não te vejo, nem te toco,
Sigo perdido, flecha preta e fria no ar...
Meu silêncio já não diz nada,
E meu silêncio é o melhor que posso ofertar-te...

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Bal masqué.


Abri a janela e deixei-te ir
Libertando assim a mim também...
Que já não tinha muito mais o que oferecer...
Voe para longe e eu te esqueço,
A língua está amarga,
Entorpecida nas palavras pra lá de roídas,
E você também não me parece muito feliz...
Esbarro a todo o momento num vazio,
Um bibelô sem lugar, nessa imensidão onde sobrei,
A cama ficou aguda,
Sem Platão, sem insônia, sem luar...
Não sonho mais...
Não penso em concertos, saudades, nem em talvez...
Desmancho a máscara em lágrimas cinza,
Perdi minha fantasia num baile que nunca houve...
Recuo nua, sugada pela realidade,
Trancada na minha aridez,
A espera de outra fábula...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Fulana.



Eu sou uma fulana,
De sandálias de tiras, famintas de chão...
Sedenta de vento e com fome de mundo...
Largo meu corpo em molejo de canoa,
Largo meu beijo em palavras roubadas,
Largo é meu ser de cores indefinidas...
Desconfio do incondicional,
Rejeito o concreto;
E devoro o mato, os verbos e as almas...
Bebo as chamas fugazes das paixões e
Caço novas manhãs;
Sigo cambaleante entre quedas e ilusões,
Acrobática sobre o fio invisível
Que o destino estendeu
Maroto, traiçoeiro e silencioso sob meus pés...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Blind.


Sou fração, tiro surdo,
Tilintante na blindagem das quatro indiferentes paredes dos meus sonhos,
Marginal, incansável,
Torturado numa velocidade assustadora,
Por uma cegueira constante
Que tolhe qualquer possibilidade,
Sou disparo sem calibre,
Sem origem,
Sem alvo,
Prossigo por não bastar-me,
Locomotiva desesperada,
Atrás de si própria nos trilhos do desconhecido...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Confissão.



Tu és testemunha das inquietações nos meus lençóis,
As heranças dos caminhos que trilhei,
Companheiras do meu reflexo...
Nos espelhos,
Nas canções,
Na sua pele...
No horizonte das minhas pretensões,
Desfilam as mais belas utopias
vestidas de impossível;
Seu nome, sua presença, seu perfume,
E o amor que escolhi não te dar...

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Rude.


As lágrimas salgaram as poucas palavras que,
Isoladas,
Desprenderam-se de seus significados,
Solidão salgada parece ainda maior...
Não esperava mais por algo especial,
Mereceria outra realidade?
Viva, sentia-se surreal...
Morta, seria abstração...
E desprendeu-se assim de seu próprio sentido,
Vagou-se, renúncia,
Matéria-prima bruta...

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Frisson.


Teu arrepio é brincadeira,
Escala de piano,
Onda que baila em teu contorno...
Aura que me seduz e arrebata
Em sonhares e quereres de ti;
Imã que me completa,
Armadilha infalível,
Onde me entrego fragilmente
À afinada teia de seus suspiros..

domingo, 26 de novembro de 2006

Azedume.


Meu amor por ti sobrou...
Resto em fundo de copo,
Raspa de canto de prato,
Barro em sola de sapato,
Amargo na lixa da língua,
Indigesto, fermenta até hoje;
Fechado em frascos antigos,
Num olor de flor pisada,
Causa-me ardor, azia, calor,
Arrepio de enjôo e pesar,
Sobrou...
Feito eu na janela a te esperar...

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Viva.


Era prisioneira de seus anseios,
Contida,
Numa jaula de ponderações vacilantes,
Hesitante defronte ao espelho desconfiado...
Mas em tempestades incandescentes,
Entregava-se aos suspiros e delícias de acidentes libertadores,
Fantasias galopantes... Inevitáveis...
Histérica, mergulhava em sua animalidade,
Fazia-se assustadora,
Exilava-se em seus prazeres,
E inventava-se feliz.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Atenção.


Existe no meu mundo,
Um risco, perigo de perder-me,
Perder-me com minhas tolices,
Perder-me em idéias fantásticas,
Batalhas, conquistas e recompensas.
Existe o perigo de querer, viver e sentir...
E o perigo ainda maior, o Ser...
Ignoro o medo e ressurjo diariamente,
Banhada de coragens infundadas,
Em cavalos invisíveis...
Mas triunfante, em vitórias magníficas...
Querendo-te,
Vivendo-te,
Sentindo-te,
Eu sou...

Basta tu sorrires...

(Ilustração de Ivan Raposo)

domingo, 19 de novembro de 2006

Helena.



Que a felicidade te encontre
E te acompanhe eternamente...
Em trilhas de ternura e veludo,
Em acalantos serenos e doces...
E que levantes de ásperas quedas
Nas mãos da dignidade e da justiça...
Que a paz, a alegria e a igualdade,
Desenhem teus caminhos...
Que proves vitórias, amores e prazeres,
E que em cada derrota, dor ou decepção,
Tenhas sempre minha mão, meu calor,
E meu silêncio a te escutar
Por todos os teus dias...
E quando eu deixar este mundo,
Que tu me recebas dentro do teu peito,
Como memória suave a dançar em tuas lembranças,
E transformar-te-ei em meu paraíso,
Abraço eterno,
Meu coração divino,
A iluminar minha última estrada...

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Brevidades.



Hoje entendi que a vida é mesmo muito breve,
E eu, no adiantado da minha,
Talvez não tenha mesmo tempo para ser tudo que sonhei...
Atriz, cantora, comerciante...
E que talvez não dê mesmo tempo para eu ser
Aquela mulher maravilhosa que me prometo todos os janeiros...
Talvez eu não consiga ir àqueles lugares todos que pretendi...
Nem consiga experimentar os sabores que não conheço...
Talvez nunca consiga confessar-te meus segredos.
Hoje me entendi tão limitada nos meus devaneios,
Que talvez jamais conte que te amo...

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Trailler.



E se de repente fosse tudo diferente,
Seu nome, seu rosto, seu beijo?
Minha foto, meu gosto, meu jeito?
E se fosse você e eu, assim, dois?
Se fosse assim, feito cinema?
Nem penso, porque de pensar, sinto,
Meu nome, meu rosto, meu beijo,
Sua foto, seu gosto, seu jeito,
Se fosse eu e você, assim, um...
Se fosse assim, feito cinema...

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Quase nada.


Vou deixar que o tempo me leve
Que resolva sozinho o que fazer comigo,
Com meus erros,
Minhas faltas...
Que ele me leve pois cansei-me de tantas igualdades,
Mesmas tolices, mesmas fraquezas,
Iguaizinhas, em cada lágrima, em cada portão,
As mesmas piedades, mesmas dores,
Não sinto nada novo.
Sou repetição do outro,
Em minhas doenças, em minhas dúvidas,
Desconfiança de que sou mesmo igual, somos todos.
Nada novo, ninguém.
Nem mesmo um novo poema para cantar,
Ou fingir feliz,
Ou fingir triste.
Nada, hoje nada.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Delicado.


Procuro beleza nas coisas do mundo,
Que me disfarce, me distraia,
Das dores dos meus espantos,
Da feiúra das minhas verdades...
Aquela beleza redentora,
Que me abençoe, me liberte,
Das ânsias dos meus quereres,
Da pequenez das minhas sombras...
Que me faça feliz, feito quem não conheço,
Feito manhã de domingo,
Beijo de porcelana,
Feito sussurro saboroso,
Alento dos dias que me levam...

Foto de Anna Lisboa.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Difícil.


Seus sonhos te denunciam,
Traem, mutilam,
Revelam sua face mais patética,
Inútil diante do que deveria ser a sua felicidade...
No seu débil sorriso ausente,
Gravadas as aspirações fugidias,
Emboloradas, solitárias...
Nos seus distantes olhos fechados,
Os tons opacos de quem espera em vão,
Colorindo uma paisagem morta,
Ofende-me seu sono,
Abafa meu prazer,
Mata-me em vigília...

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Sete.


Curvava-me sobre as graves lições que ele esparramava sob meus joelhos,
Na cachaça banhava sua língua,
Áspera de verdades cáusticas,
Seu olhar, punhal certeiro no horizonte...
Doía-me, esperar seu veredicto,
Doía-me seu silêncio,
Doía-me...
E ele partia, enigma na meia-noite,
E eu, trepidava em minhas incertezas,
Sobrava em meio às brumas,
Restos dos seus cigarros,
Rastros nas encruzilhadas...

domingo, 5 de novembro de 2006

Ilusão.



Sussurras fantasias em meus ouvidos...
Incenso em minha casa,
Sempre aberta aos teus devaneios...

Bailas em meus olhos...
Pirilampo nos meus desejos,
Sempre vorazes de tua presença...

Comovida, assisto ao espetáculo do teu nome,
Roubo teu sorriso, me banho nas tuas cores,
E eu, menos cativa, menos bela, mais vulgar...

Mais um aplauso na platéia dos teus encantos...


Uma foto em três versões.

Foto de Mônica Santos.

Textos de Fred Neumann , Ghiza Rocha e Mônica Santos CONFIRA!

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Laços.


Entrelaçados,
Por acidente da vida,
Ou capricho pessoal divino,
Escravos, imóveis,
Um no veneno do outro,
Atados, estreitos, precários,
Sem fruto, opção, nem horizonte,
Somente um estreito nó,
Estrangulando o que restava de poesia...

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Torpor.


Meu silêncio me condena
Transparece o que escapa de mim,
Contemplativos,
Meus olhos se consolam entorpecidos nas vidraças,
Nas estradas,
Sigo engolindo a poeira das verdades que julgava,
Sigo a trilha do que eu apreciava ser
Mas nunca sendo, nunca vendo, nunca provando,
Calada,
Jazem os pensamentos,
Jazem as pequenas vontades,
Vai-se o agora,
Resta-me o depois...


(Foto de Mônica Santos)

sábado, 28 de outubro de 2006

Bis.





Quando eu regressar,
Devo te reencontrar,
E rebeijar-te tantas vezes necessárias,
Que se refaça o destino...
Que o resgate de suas fugas,
Retoque nossa história,
Redemoinho,
Reconsidere os meus sonhos reprimidos...
Quando eu, recomposta de tantos desatinos,
Rebrilharei, feito realeza, feito recreio,
Reflexo encantado,
Num recanto de ti...

(Foto de Mônica Santos)

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Cantiga.


Embalo minhas dúvidas
Com cantigas sem respostas...
Quem sou? Debruçada num espelho de palavras,
Fluindo em verbo e sujeito passados,
Desconfiada de minhas intenções,
Alvo de minhas ternas enfermidades
Embalo ainda assim minhas dúvidas,
Com cantigas sem respostas...
Quem sou? Compelida a transformar desgosto em poesia,
Discorrendo sobre o acaso e o desconhecido...
Acuada por hostilidades do destino,
Ao final de percurso nenhum,
Embalo tudo, dúvida, palavra, sujeito, destino...
E faço de mim, a resposta.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

3h00m.


Noites insones,
Olhos estatelados no relógio,
Boca seca de sonhos,
Numa ausência até de lua...
Um interminável incômodo de ossos, carnes e pele,
Acordados...
As mãos tateando estrelas na escuridão...
Os pés frios de caminhos já idos,
A mente desperta costurando idéias,
O resto da noite como batalha,
O resto de corpo que resta...

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Anônimo.


Na memória, todos os tipos de assombro,
Monstros imateriais,
Adormecidos no silêncio, por anos ritmado,
Mistura confusa de loucura e nostalgia,
Saída covarde, velhas formas de castigo...
Insistente em se fazer surdo,
O presente cerrado sob os olhos,
O futuro num café,
Se corresse de si próprio,
Se viajasse por delírios,
Se... se permitisse ao erro,
Mas optou pelo abismo de não estar,
A eterna carência das ilusões...
Preferiu entregar-se ao tempo...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Prece.



Preciso que me ames...
Com mais verdade do que os segredos contêm,
Com força e intensidade maiores do que meus medos,
Que me digas o que nunca te direi,
Faça-me uma realidade jamais sonhada,
Um amor que deixe loucas as Deusas,
Para que minhas horas de mármore,
Ganhem o colorido dos teus absurdos,
Minha língua prove doce licor,
Sob seus beijos alucinados,
Minha maré transborde de júbilo,
E com sua presença encantada,
Eu possa enfim experimentar a alegria de Ser.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Gêmeo.





Cega, prisioneira de lugar-comum,
Entrego-me ao seu lento veneno,
Dói-me a carne ver-te apenas,
Dói-me tudo e toda,
Ao imaginar o gosto oco do seu sorriso,
Sua cama fria de asperezas,
Sem conto, sem noite, sem seda,
Atônita, estátua em gelo negro,
Assisto ao seu pseudo-funeral...
Dói-me o brilho que tiveste,
Dói-me quem não foste na minha vida,
Ao abandonar uma página ou um cigarro,
No conformismo de fenecer,
Sem segredo, sem expectativa, sem ti,
Contigo.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Vez em quando...


És lume na noite,
Vago, vindas e idas,
Esporádico, faísca e salto,
De carona, me leva em seu rastro alado...
Fênix, majestade, devaneio...
Criança, sorriso, demônio...
És vôo e pouso,
Despertar, cintilar e atentar,
Vislumbre de cinzas ainda ardentes em mim...

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Em tempo.


Não posso esperar...
Nem por promessas, nem por beijos,
Nem por sol, chuva ou primavera
Nem por sinais, sorrisos ou senhas
Não tenho mesmo muito tempo,
Porque já me transbordei em fantasias e quereres,
Afoguei-me em palavras e doçuras,
Mutilei-me demais em ciúmes e temores
E você não veio...
Não posso esperar,
Nem por aviões, ou cartas,
Nem por fotografias, rosas ou fumaça,
Nem por perdões, lágrimas ou canção...
Não tenho mesmo muito tempo,
Porque já desisti do seu relógio,
Cansei-me feito muleta pesada,
Recompus-me em vôo e liberdade...
E já não estou...

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Opção.


Prefiro que não me vejas,
Para que não me desnudes,
Não me assaltes desse presente ao qual me ancorei,
Para que não descubras as horas que contei,
Que não me vejas assim tão pálida e tola,
Tão entregue às minhas mentiras,
Tão serva das minhas obviedades...
Se eu pudesse perder-me um minuto antes de te reencontrar,
Talvez não estivesse assim,
Escrevendo versos isolados de mim...

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Dreams.


Crio retiros onde posso me esconder
De felicidades infundadas,
Tristezas vulcânicas,
Minha lava subterrânea,
Onde eu, clandestina nessa cidade encantada,
Disfarço-me de clown,
Alimentada por fortuna alheia,
Sustentada por antropofagia indigesta,
Invento damas e cavalheiros maravilhosos
Personagens de um futuro admirável
Que eu me prometo para esta noite...

domingo, 8 de outubro de 2006

Zen.



Busco minha harmonia,
Serenando em suspiros cegos,
Voando em abismos internos,
Pensamentos ateus,
Pra defender-me de ilusões,
Isolar-me em gota silenciosa e cristalina,
Como a verdade,
Indestrutível e imperial,
Como meus nobres castelos de sons,
Nessa vida que aos poucos me cala...

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Tempestade.


O vendaval da última noite arrebatou-me
Numa tempestade de memórias e areia,
Em labirinto de nomes e lugares,
Mapas, invernos e abrigos,
Trouxe-me fotografias, sons e sinais,
Em assovios cortantes...
As lembranças tilintaram nas vidraças,
Invadiram o meu quarto,
Num misto de feitiço e fatalidade,
Venosas,
Questionadoras,
Provocaram-me e repousaram
No baú distante de que fui um dia...

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Feroz.


Existe em mim uma espécie de bicho,

Nada sensual,

Áspero, rude, eriçado,

Nada belo,

De uma selvageria alimentada da minha alma esquecida,

Sustentado pela essência das coisas em que creio

Rejeitando as abominações desse mundo castrado,

O eu não-domesticável, não-controlável, não-manso...

Apenas eu, do meu jeito mais cru,

Cravada em meus defeitos,

Os dentes arreganhados aos meus moinhos,

As pupilas dilatadas aos meus mais íntimos pavores,

Os pêlos arrepiados,

Num emaranhado entre o ódio e o amor,

Salivando meus segredos,

Passeando no deserto dos meus prazeres...

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Remédio.


Estava triste feito vaso vazio,
Tão sem brilho, sem gosto, sem cor,
Sem sono, sem ilusão, sem dor,
Sem desejo, sem graça, sem tempo,
Sem cheiro, sem hoje, sem ontem,
Sem colo, sem barco, sem solo,
Tão sem mim...
Que precisei de ti...

sábado, 30 de setembro de 2006

Primavera.


É sopro colorido,
Véu alado que rodopia, delicadíssimo
Entre cabeças e flores, vertigem
Êxtase de delicadeza e contentamento
Pousada em meu jardim
Transformando minhas distrações em regalo
E desmaia repentinamente...
Consolada em pétalas,
Levando consigo a derradeira mocidade,
A última brisa da tarde.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Fábula.


Olhei-me no espelho,
Como quem vê peixe,
Ou amostra de pano...
Apenas colhia com o olhar
Os traços que a vida me imprimiu,
E hipnotizada por tão intimidante imagem,
Fingi que me não reconhecia,
Jamais vira criatura tão estranha,
E velha.
E fria.
Irreal, talvez...
Então inventei uma pressa qualquer
E abandonei-me, trancada em moldura de vidro...

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

00h00m.


A noite é senhora da minha feiúra,
Condecora minhas fraquezas...
E perdida entre alarmes e suores,
Rastejo em solo úmido,
Sem norte, sem nome,
Caçando minhas senhas,
Lambendo minhas patas,
Pra me proteger da escuridão,
Escondida dos meus silêncios,
Foragida dos meus medos...

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Multiplicidade.


Hoje sou várias...
Enxurradas, turbilhões, tempestades,
Diferente do que inventara,
Perdida no que pensava ser,
Eu era e já não sou.
Virei uma incrível novidade,
Aterrorizante,
Lindamente assustadora,
Gigantesca, se comparada a ontem
Incógnita densa de amanhã...
Vou assim me vasculhando,
Traçando em poesia um mapa novo,
Para que eu não me perca novamente,
Não escape de mim.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Amor.


Esta foi a minha contribuição para o livro "O que é o amor", projeto de http://anjonovalis.blogspot.com/ participem amigos blogueiros!


O amor é um boneco dourado,
Brinca e colore afortunadas crianças,
Que se alimentam de beijos embrulhados em papel,
Desenhados com caligrafia perfeita,
Perfumados com desejos e saudades.
Crianças que, ao findar o baile,
Já sem canções, nem promessas,
Cansadas do encanto perecido,
Abandonam-se em versos e recortes,
Esperando por nova serenata,
Ou um poema,
Que as tornem novamente infância,
Douradas outra vez...

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Sussuro.



Cuidado minha flor...
Essas mentiras de veludo,
Cansam minhas velhas traças...
Não me perca em motes baratos,
Em conquistas repetidas...
Acolha-me apenas se puderes,
Se tiveres ainda pureza,
Ou mesmo estrofes de amor,
Onde eu não seja apenas figura de linguagem,
Mas seja tua língua,
Morna,
De seda,
E verdadeira.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Precisão.


A carne de que sou feita precisa de sangue grave
Daquele, vindo de vulcão profundo,
Do meu ser mulher,
Do meu ser amante,
Aquarela violenta, que me faz caçadora dos meus suspiros,
Traficante das minhas emoções...
Penso que gosto de amar,
Mas não gosto.
Penso que gosto de viver,
Mas não gosto.
Penso que penso,
Mas não.
Faço-os somente porque preciso.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006


Meu Deus se alimenta das minhas dúvidas
Cresce em mim dentro de cada lacuna não preenchida,
Fortalece-se a cada pergunta não respondida...
Deus toca-me diariamente,
Em aparições em meu portão,
Em cartas, beijos, desenhos,
Em telefonemas mágicos,
No sorriso pousado no meu colo,
E assim, a cada dia,
Descubro pequenos grãos,
As vírgulas das múltiplas verdades do universo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Bem-me-quer.



Nas caprichosas pétalas do destino,
Encontrei-te, gêmeo em buscas e amores incertos,
Encontramos-nos entre copos (esses sinos boêmios...)
E acordes (esses feitiços sustenidos...)
Bebendo o “era” e o “seria”,
Nossos desejos, segredos e riscos...
No perfume suave que me beija,
Na saudade que plantas em todas,
No teu jeito de ser infinitamente belo,
Eu descubro tudo que “é”
Nesse bem-me-quer onde o mal nunca me escolhe...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Revelação.


Hoje a lua arranhou o mar,
Abriu uma trilha que atropelou minha sacada,
Silenciou meus sonhos,
Pôs-me em pé,
Abismada,
Observando o clarear dos meus olhos,
Que, enfim, viram o amanhecer...

sábado, 2 de setembro de 2006

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Escrevia-te cartas de amor,
como a chuva que, distraída,
Esquecia faíscas em minha vidraça...
Mas fui tomada por tamanha delicadeza,
Que acabaram-me as palavras...