quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Feliz.


O que vê é retrato triste, descrição do vazio preenchedor da falta que sente de si.
Procura no outro o que só encontraria nela própria,
escraviza sentimentos para sustentar sua fragilidade escolhida convenientemente...
Esconde-se em olhares, silêncio e sob a lente da desgraça, tortura-se e chora sua piedade, dando ao mundo o que compra para si.
Perde mil e tantos batimentos tentando compreender o que apenas é, sem explicação.
Depois sai, abriga-se em alguma nova teoria, religião ou cantor e sai sorrindo, certa de que a culpa nunca foi sua...

Morno.

Imersão em águas mornas...
O silêncio transforma a inquietude em respiração.E a respiração em dança ritmada,
marcação compassada de dúvidas e ansiedades...
Os olhos bóiam em busca de porto, alguma confirmação do que até então são apenas suspeitas, ondas de sentimento anônimo.
O silêncio faz da ignorância um esperar, uma semente do que depois será, obriga a contemplação do mel e do fel interno, o retrato do que se realmente se sabe.
Sou eu.
O corpo todo pára, a espera de um estímulo, faísca de um grito, alguma explosão que o impeça de se ver refletido...
Imagem impiedosa que acusa qualquer mortal de sua fragilidade inevitável.
Mudo dentro de um recipiente pulsante, aprisionado pelos limites da palavra.
Em silêncio.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Sem perder a ternura...


Uma força visceral faz de mim um soldado...
soldado de uma guerrilha muito íntima, disputa entre o que sou e o que esqueço ser.
Batalha na qual me traio e quando menos espero, estou no ataque com meus sons, olhares e gestos, pimenta, raio e flecha.Servindo a um poder imenso e incontrolável,
uma vontade minha, para comigo mesma, me repensar, me preservar, me vencer de uma espécie de inimizade oculta, onde tento muitas vezes abafar o que realmente sou...
Voz ativa, nada passiva, sujeito determinado a ser substantivo maior,
bem maior do que “mulher”.Lembrança que muitas pessoas esquecem e sofrem, vencer a batalha interna é uma forma de compreender os segredos da vida, ganhar o mundo... Libertar e empossar com honras monárquicas o melhor pedaço de si...

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Esférico.

Passa alta, redonda, a alegria da criançada sob meus olhos...
Nessa hora não existe voz ativa, aliás, voz nenhuma, somos passivos ao que de longe, parece uma espécie de êxtase coletivo...
...quinze, vinte crianças paralisadas, e eu, acompanhando a trajetória do tesouro esférico, quase alado, que cruza a quadra e pousa no pé do afortunado herói pré-primário...
Que puxa para si todas as outras crianças, trabalho de um imã, que consegue reunir em segundos todos os olhinhos que até então só contemplavam...
e nessa hora sobram pernas, pés, cotovelos para que num mar de bracinhos, em breve ela surja, redonda, imperiosa, alheia aos desejos da criançada, novamente sobrevoando as fantasias de cada um e explodindo num gol anônimo, coroado pelo aplauso de todo o Maracanã Imaginário...
Na minha mente ela adormece, como visita que virá, a minha felicidade está chegando para me deixar com formato de planeta, recheio vivo, transbordante de amor, meu gol feminino.