domingo, 30 de outubro de 2005

Comer maçã.


Poetizar a vida é como enfeitar flor, fica com aquele jeito de redundância, de sobrescrito... parece que estou desperdiçando tempo e palavra.A vida tem se apresentado de forma tão deliciosamente singela, passageira e leve que está meio óbvio que fui eu (ô bichinho burro), que por não entende-la, passei muitos anos estragando tudo.
Gastei tanto tempo me preocupando com pequenezas, datas, quantidades, tamanhos, valores, profundidades, distâncias, cores e formas que nem notei o gigantismo do que me ocorria...
Gigante formoso, com ares de fantástico, apresentação etérea do que sempre quis ver, tocar...
Confirmação de sonho hipotético, delírio de criança... a vida tem se apresentado exatamente como eu imaginava quando menina,
mas preferi cair nas armadilhas da minha ignorância e passei muitas eras dentro da minha pretensa sabedoria...
A vida tem me parecido bem simples...
igual àquelas duas meninas que ontem comiam maçã no ônibus.

domingo, 23 de outubro de 2005

Positivo.

Hoje acordei tendo a certeza de que o que antes era abstração, agora é concreto.
Você que antes era somente um sonho, uma idéia, agora existe.
Pelo pouco que conheço sobre o assunto, você está bem parecido com um ponto final. Assim: .O ponto final de um período onde éramos apenas dois, dois sonhadores interessados em você, que ainda nem tem forma...
você é bem parecido com o que eu pensava ser a felicidade...
tem um jeito de magia, sinto uns sintomas de encantamento profundo bem parecidos com os que seu pai fez comigo...
e ainda é apenas um ponto...
final da minha era de egoísmo, início da minha era fantástica.Em breve você não se parecerá mais com um ponto (que bom!) e será mais parecido com palavra, aquela monossílaba, que sai da boca quando estamos tímidos...
talvez algo como um “Ei!” para poder, mais tarde, se transformar em substantivo,
aquele que todos já querem saber, “menino” ou “menina” essas coisas...Mas você, que já sabe quem é, vai insistir em me fazer escrava dos seus segredos...
Depois, quando eu for pouco para sua imensidão,
você sairá de dentro de mim, já forte, em forma de verbo,
para ganhar este mundo que me faz essa contempladora incapaz de interpretar o maior feitiço de todos:
a Vida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Locação.

Existe um universo dentro de mim, que não tem endereço,
é perdido entre pensamentos e reflexos.
Sou como uma intrusa dentro dele, estrangeira, de língua complexa e aparência exótica.Vivo neste mundo, profundo e sempre novo, com mapa infindo e fenômenos naturais, catástrofes casuais e poentes magníficos.
Ele exerce sobre mim estranheza e fascínio, sempre revelando um algo diferente, entrada desconhecida, vertente de força fresca e majestosa.Descobri-me nele quando me escapou o que antes pensava ser eu, sólida.
Quando perdi meu dicionário pessoal, meus pequenos significados, certezas tão equivocadas quando comparadas a tantas realidades que ignoro...Diariamente ocorrem-me janelas particulares, onde como voyeur de almas, consigo ver-me sob tantas outras lentes, traduzir-me em tantas outras línguas...
e perceber que sou tanto e múltipla, que, numa falha de vigilância,
deixei penetrar-me por este universo que se formou ao longo dos anos.Palácio de cores, sombras, pensamentos e outros inquilinos abstratos, com seus sofás, quadros e discos,
enquanto eu passo os dias a contempla-los, eles nem sequer me notam, não precisam de mim...

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Liberdade.


Hoje me senti tão livre, tão imensamente leve que não coube em mim a alegria.
De tão incontida ocupei cada vão, brecha do que antes era suspiro e pesar.
Tornei-me tão translúcida que imaginei nem ser eu,
de tanto tempo que não sentia o sabor da minha própria vida.
Hoje não me importou passado, nem presente, nem futuro,
não me preocupei com dinheiro, nem com tempo, nem com compras,
tão pouco pensei em calorias, nem doenças.
Apenas vivi.
Nenhuma âncora para a tristeza, nem dúvida irremediável, nem ânsia de esperança, algema, neurose, azia, muleta inconsciente.
Passei batom, peguei minha gata, olhei pro céu e vi no cinza gotas perdidas que ainda não são, lembrei-me de que sou feliz.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005


É um animal, uma besta-fera dentro da alma.
Dor secreta que oculto de mim e explode, sempre com destino certo e firo somente eu, vítima do que sufoca minha mente.
Mora com a rejeição, do que finjo ser, alimenta-se do que mais temo e cultivo dentro de mim, como regar daninhas e arrancar flores.
Disfarça-se sob máscara forte e grande, pintura linda e idealizada pra negar o que me faz sentir pequena, pra esconder do criador, a criatura.
Canta composição destruidora para coreografar uma dor que ninguém conhece, que não se transforma em ato, palavra ou gesto. Apenas dói.
Escrava dentro de um engenho de fantasias, de pesadelos tingidos de realidade, com olho vidrado no centro do alvo, onde a mesma flecha preta cantada em verso nordestino, pousa.
Agora tento respirar, fujo da mira da insensatez, para quem sabe, enfrentar o meu maior inimigo, que tem meu rosto, meu nome e minha forma, mas ninguém enxerga porque está escondido atrás de trincheiras da guerra que travo contra mim mesma.
Batalha incansável em busca de me descobrir e me curar da minha fábrica de dores.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Um.


Penso em quantas fui e quantas ainda serei.
Não lembro mais o quê, ou quem matou cada eu que já fui,
ou o quê parirá o que serei, mas lembro-me de cada pessoa que inspirou comigo, no expiro, tantas vezes eu não estava mais lá.
Quantas vezes fugi, ignorando o que o destino bordara...Sou parte de uma força venosa, que leva e trás, sou arterial, também levo e busco o que movimenta minhas transformações.
Desfazendo-me.Alimentando, colorindo e ulcerando o que participo, sou elemento vital e passageiro.
Conversão de ateu, lápis de Goya, amor póstumo, sou o que não compreendo, chave do meu segredo.
Meu canto fala por mim, mas sou por vezes surda, pressinto a rima e não enxergo a poesia, renasço, mas não me vejo, nem sei me pintar, sequer consigo caminhar enxergando o rumo de meus passos, mas prossigo, pulsando, sangue que não se cansa, hemorrágico, aos passos trôpegos do meu coração, coagulando-me a cada rasgo da Tua vontade.

sábado, 8 de outubro de 2005

Rascunho.


O que me intriga é a efemeridade das coisas...Tudo que hoje sim, amanhã, não.O que agora parece obra prima, em minutos, não.Dia jóia, noite pretensioso lixo.Permaneço então, numa busca, uma autobusca, como cachorro atrás do próprio rabo.
Sou como um rascunho do que serei, sempre me refazendo, sempre me transformando.Olhando atrás, no verso da minha vida, vejo as tantas novidades emboloradas que deixei no museu do ser eu.Penso no que deixo de rastro pelo caminho, às vezes volto para alimentar os vazios que insisto em carregar, lacunas não preenchidas, espaços livres da alma...
alimentar com o que antes julguei dejeto.Hoje melódico, amanhã, dissonante...
depois, das dissonâncias me refazer em harmonia profunda e acreditar que o agora é o melhor que posso ser.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005



Se eu sou feliz meu amor?Sou, sou muito feliz, e você é parte disso.Não escrevo sobre felicidade pois tenho medo de que ela se envaideça e fuja de mim, assoberbada...flor casual sobre o meu destino.Eu preciso escrever sobre o que me é ardido, incômodo, áspero na alma, pra ver se sai da garganta e leva essa rouquidão que os anos trouxeram.Se fosse escrever sobre felicidade seria texto mudo,
porque a minha felicidade aprendeu a ser silenciosa.
Teria que ser sensação, um beijo seu, ou passeio no Pântano do Sul.
Sou feliz, muito feliz, e você é parte disso.
Minha melancolia mora somente nas palavras, não tenho outro espaço pra ela no meu viver, e lá repousa, respira os sentimentos que eu não trago no presente, porque presente é estrada feliz, é música no seu violão, sorriso na sua boca, seu olho no meu.
E a felicidade... prefiro deixa-la pensar que não reparei que está ao meu lado, no seu colo, deixa-la distraída com as melancolias que escrevo, pra ver se eu a engano e ela acaba ficando aqui, pra sempre....

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Quadrúpede.


Queria falar sobre o amor de maneira suave
Mas não posso porque nunca amei de maneira suave.Nunca tive por alguém sentimento assim: suave.
Nem fui suave para alguém.Não tenho voz, corpo nem sequer olhar suave......nenhuma das pessoas que amo são suaves...elas entram e saem da minha vida de forma bruta e rasgada.
E o que desenham na minha história não é recordação suave, é alegria, riso, frase e momentos violentamente amorosos, felicidade bruta e rasgada...
As ficam comigo, insistem em me aceitar, matéria prima, incapaz de virar poesia suave...
O amor não tem suavidade, mas eu insisto em querer pensá-lo assim...
Não gostaria de assumir que gosto de sentir por alguém sentimento tão dilacerante e irascível.
Com o que sei sobre amor, não dá pra fazer poesia suave...

Sobre a saudade.


Saudade é assumir uma insatisfação...
não estar pleno de alguém...
precisar de mais ouvi-lo, vê-lo,
de ainda saber-se perto,
mesmo que seja realidade remota.
É reconhecer que ainda falta gesto, palavra, som... e sobra ausência.