quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Resumo.



Durou quase um minuto.
Durante quase um minuto tive a verdadeira constatação de que irei morrer.
Foram rápidos e intermináveis segundos de realidade, tão palpáveis, tão cruéis, que quase atravessei a janela do ônibus.
Eu nem precisava estar naquele ônibus, nem precisava daquela manhã.Eu nem precisava saber disso com tanta clareza, durante desafinados instantes pude ter tanta, mas tanta certeza de que morrerei que congelei meus olhos fixados nas gotas de chuva da janelinha...e pude até sentir o corpo envelhecendo, sentir a vida escapando pelos ponteiros do meu relógio.
Senti pânico, como levitação forçada em atmosfera que eu não queria, num vazio onde ninguém caberia, nem a palavra "por quê?” ·
Sonhei com o quanto eu sou dispensável, afinal se eu não fizesse o que eu faço, outra pessoa estaria fazendo.
Pensei no efêmero, na carniça que um dia será meu resumo.
Naquela hora eu parecia um cérebro boiando na cadeirinha do ônibus, pensando e observando os pedaços soltos do meu corpo, como se fôssemos trechos dispersos, fascículos atrasados de coleção já esgotada, como se fôssemos gente.
Mas ainda bem que éramos apenas segundos, correndo atrás dos ponteiros daquela manhã...

Nenhum comentário: