domingo, 11 de dezembro de 2005

Cama e mesa


Não quero virar poesia, nem letra de música...
Virar distância...
Mulher que vira poesia geralmente não está mais lá,
Foi levada ou fugiu.
Prefiro ser então pedaço do lençol,
Pãozinho na mesa,
sempre presente,
abraçando seu corpo, dentro da sua boca...

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Feliz.


O que vê é retrato triste, descrição do vazio preenchedor da falta que sente de si.
Procura no outro o que só encontraria nela própria,
escraviza sentimentos para sustentar sua fragilidade escolhida convenientemente...
Esconde-se em olhares, silêncio e sob a lente da desgraça, tortura-se e chora sua piedade, dando ao mundo o que compra para si.
Perde mil e tantos batimentos tentando compreender o que apenas é, sem explicação.
Depois sai, abriga-se em alguma nova teoria, religião ou cantor e sai sorrindo, certa de que a culpa nunca foi sua...

Morno.

Imersão em águas mornas...
O silêncio transforma a inquietude em respiração.E a respiração em dança ritmada,
marcação compassada de dúvidas e ansiedades...
Os olhos bóiam em busca de porto, alguma confirmação do que até então são apenas suspeitas, ondas de sentimento anônimo.
O silêncio faz da ignorância um esperar, uma semente do que depois será, obriga a contemplação do mel e do fel interno, o retrato do que se realmente se sabe.
Sou eu.
O corpo todo pára, a espera de um estímulo, faísca de um grito, alguma explosão que o impeça de se ver refletido...
Imagem impiedosa que acusa qualquer mortal de sua fragilidade inevitável.
Mudo dentro de um recipiente pulsante, aprisionado pelos limites da palavra.
Em silêncio.

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Sem perder a ternura...


Uma força visceral faz de mim um soldado...
soldado de uma guerrilha muito íntima, disputa entre o que sou e o que esqueço ser.
Batalha na qual me traio e quando menos espero, estou no ataque com meus sons, olhares e gestos, pimenta, raio e flecha.Servindo a um poder imenso e incontrolável,
uma vontade minha, para comigo mesma, me repensar, me preservar, me vencer de uma espécie de inimizade oculta, onde tento muitas vezes abafar o que realmente sou...
Voz ativa, nada passiva, sujeito determinado a ser substantivo maior,
bem maior do que “mulher”.Lembrança que muitas pessoas esquecem e sofrem, vencer a batalha interna é uma forma de compreender os segredos da vida, ganhar o mundo... Libertar e empossar com honras monárquicas o melhor pedaço de si...

quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Esférico.

Passa alta, redonda, a alegria da criançada sob meus olhos...
Nessa hora não existe voz ativa, aliás, voz nenhuma, somos passivos ao que de longe, parece uma espécie de êxtase coletivo...
...quinze, vinte crianças paralisadas, e eu, acompanhando a trajetória do tesouro esférico, quase alado, que cruza a quadra e pousa no pé do afortunado herói pré-primário...
Que puxa para si todas as outras crianças, trabalho de um imã, que consegue reunir em segundos todos os olhinhos que até então só contemplavam...
e nessa hora sobram pernas, pés, cotovelos para que num mar de bracinhos, em breve ela surja, redonda, imperiosa, alheia aos desejos da criançada, novamente sobrevoando as fantasias de cada um e explodindo num gol anônimo, coroado pelo aplauso de todo o Maracanã Imaginário...
Na minha mente ela adormece, como visita que virá, a minha felicidade está chegando para me deixar com formato de planeta, recheio vivo, transbordante de amor, meu gol feminino.

domingo, 30 de outubro de 2005

Comer maçã.


Poetizar a vida é como enfeitar flor, fica com aquele jeito de redundância, de sobrescrito... parece que estou desperdiçando tempo e palavra.A vida tem se apresentado de forma tão deliciosamente singela, passageira e leve que está meio óbvio que fui eu (ô bichinho burro), que por não entende-la, passei muitos anos estragando tudo.
Gastei tanto tempo me preocupando com pequenezas, datas, quantidades, tamanhos, valores, profundidades, distâncias, cores e formas que nem notei o gigantismo do que me ocorria...
Gigante formoso, com ares de fantástico, apresentação etérea do que sempre quis ver, tocar...
Confirmação de sonho hipotético, delírio de criança... a vida tem se apresentado exatamente como eu imaginava quando menina,
mas preferi cair nas armadilhas da minha ignorância e passei muitas eras dentro da minha pretensa sabedoria...
A vida tem me parecido bem simples...
igual àquelas duas meninas que ontem comiam maçã no ônibus.

domingo, 23 de outubro de 2005

Positivo.

Hoje acordei tendo a certeza de que o que antes era abstração, agora é concreto.
Você que antes era somente um sonho, uma idéia, agora existe.
Pelo pouco que conheço sobre o assunto, você está bem parecido com um ponto final. Assim: .O ponto final de um período onde éramos apenas dois, dois sonhadores interessados em você, que ainda nem tem forma...
você é bem parecido com o que eu pensava ser a felicidade...
tem um jeito de magia, sinto uns sintomas de encantamento profundo bem parecidos com os que seu pai fez comigo...
e ainda é apenas um ponto...
final da minha era de egoísmo, início da minha era fantástica.Em breve você não se parecerá mais com um ponto (que bom!) e será mais parecido com palavra, aquela monossílaba, que sai da boca quando estamos tímidos...
talvez algo como um “Ei!” para poder, mais tarde, se transformar em substantivo,
aquele que todos já querem saber, “menino” ou “menina” essas coisas...Mas você, que já sabe quem é, vai insistir em me fazer escrava dos seus segredos...
Depois, quando eu for pouco para sua imensidão,
você sairá de dentro de mim, já forte, em forma de verbo,
para ganhar este mundo que me faz essa contempladora incapaz de interpretar o maior feitiço de todos:
a Vida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Locação.

Existe um universo dentro de mim, que não tem endereço,
é perdido entre pensamentos e reflexos.
Sou como uma intrusa dentro dele, estrangeira, de língua complexa e aparência exótica.Vivo neste mundo, profundo e sempre novo, com mapa infindo e fenômenos naturais, catástrofes casuais e poentes magníficos.
Ele exerce sobre mim estranheza e fascínio, sempre revelando um algo diferente, entrada desconhecida, vertente de força fresca e majestosa.Descobri-me nele quando me escapou o que antes pensava ser eu, sólida.
Quando perdi meu dicionário pessoal, meus pequenos significados, certezas tão equivocadas quando comparadas a tantas realidades que ignoro...Diariamente ocorrem-me janelas particulares, onde como voyeur de almas, consigo ver-me sob tantas outras lentes, traduzir-me em tantas outras línguas...
e perceber que sou tanto e múltipla, que, numa falha de vigilância,
deixei penetrar-me por este universo que se formou ao longo dos anos.Palácio de cores, sombras, pensamentos e outros inquilinos abstratos, com seus sofás, quadros e discos,
enquanto eu passo os dias a contempla-los, eles nem sequer me notam, não precisam de mim...

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Liberdade.


Hoje me senti tão livre, tão imensamente leve que não coube em mim a alegria.
De tão incontida ocupei cada vão, brecha do que antes era suspiro e pesar.
Tornei-me tão translúcida que imaginei nem ser eu,
de tanto tempo que não sentia o sabor da minha própria vida.
Hoje não me importou passado, nem presente, nem futuro,
não me preocupei com dinheiro, nem com tempo, nem com compras,
tão pouco pensei em calorias, nem doenças.
Apenas vivi.
Nenhuma âncora para a tristeza, nem dúvida irremediável, nem ânsia de esperança, algema, neurose, azia, muleta inconsciente.
Passei batom, peguei minha gata, olhei pro céu e vi no cinza gotas perdidas que ainda não são, lembrei-me de que sou feliz.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005


É um animal, uma besta-fera dentro da alma.
Dor secreta que oculto de mim e explode, sempre com destino certo e firo somente eu, vítima do que sufoca minha mente.
Mora com a rejeição, do que finjo ser, alimenta-se do que mais temo e cultivo dentro de mim, como regar daninhas e arrancar flores.
Disfarça-se sob máscara forte e grande, pintura linda e idealizada pra negar o que me faz sentir pequena, pra esconder do criador, a criatura.
Canta composição destruidora para coreografar uma dor que ninguém conhece, que não se transforma em ato, palavra ou gesto. Apenas dói.
Escrava dentro de um engenho de fantasias, de pesadelos tingidos de realidade, com olho vidrado no centro do alvo, onde a mesma flecha preta cantada em verso nordestino, pousa.
Agora tento respirar, fujo da mira da insensatez, para quem sabe, enfrentar o meu maior inimigo, que tem meu rosto, meu nome e minha forma, mas ninguém enxerga porque está escondido atrás de trincheiras da guerra que travo contra mim mesma.
Batalha incansável em busca de me descobrir e me curar da minha fábrica de dores.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Um.


Penso em quantas fui e quantas ainda serei.
Não lembro mais o quê, ou quem matou cada eu que já fui,
ou o quê parirá o que serei, mas lembro-me de cada pessoa que inspirou comigo, no expiro, tantas vezes eu não estava mais lá.
Quantas vezes fugi, ignorando o que o destino bordara...Sou parte de uma força venosa, que leva e trás, sou arterial, também levo e busco o que movimenta minhas transformações.
Desfazendo-me.Alimentando, colorindo e ulcerando o que participo, sou elemento vital e passageiro.
Conversão de ateu, lápis de Goya, amor póstumo, sou o que não compreendo, chave do meu segredo.
Meu canto fala por mim, mas sou por vezes surda, pressinto a rima e não enxergo a poesia, renasço, mas não me vejo, nem sei me pintar, sequer consigo caminhar enxergando o rumo de meus passos, mas prossigo, pulsando, sangue que não se cansa, hemorrágico, aos passos trôpegos do meu coração, coagulando-me a cada rasgo da Tua vontade.

sábado, 8 de outubro de 2005

Rascunho.


O que me intriga é a efemeridade das coisas...Tudo que hoje sim, amanhã, não.O que agora parece obra prima, em minutos, não.Dia jóia, noite pretensioso lixo.Permaneço então, numa busca, uma autobusca, como cachorro atrás do próprio rabo.
Sou como um rascunho do que serei, sempre me refazendo, sempre me transformando.Olhando atrás, no verso da minha vida, vejo as tantas novidades emboloradas que deixei no museu do ser eu.Penso no que deixo de rastro pelo caminho, às vezes volto para alimentar os vazios que insisto em carregar, lacunas não preenchidas, espaços livres da alma...
alimentar com o que antes julguei dejeto.Hoje melódico, amanhã, dissonante...
depois, das dissonâncias me refazer em harmonia profunda e acreditar que o agora é o melhor que posso ser.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005



Se eu sou feliz meu amor?Sou, sou muito feliz, e você é parte disso.Não escrevo sobre felicidade pois tenho medo de que ela se envaideça e fuja de mim, assoberbada...flor casual sobre o meu destino.Eu preciso escrever sobre o que me é ardido, incômodo, áspero na alma, pra ver se sai da garganta e leva essa rouquidão que os anos trouxeram.Se fosse escrever sobre felicidade seria texto mudo,
porque a minha felicidade aprendeu a ser silenciosa.
Teria que ser sensação, um beijo seu, ou passeio no Pântano do Sul.
Sou feliz, muito feliz, e você é parte disso.
Minha melancolia mora somente nas palavras, não tenho outro espaço pra ela no meu viver, e lá repousa, respira os sentimentos que eu não trago no presente, porque presente é estrada feliz, é música no seu violão, sorriso na sua boca, seu olho no meu.
E a felicidade... prefiro deixa-la pensar que não reparei que está ao meu lado, no seu colo, deixa-la distraída com as melancolias que escrevo, pra ver se eu a engano e ela acaba ficando aqui, pra sempre....

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Quadrúpede.


Queria falar sobre o amor de maneira suave
Mas não posso porque nunca amei de maneira suave.Nunca tive por alguém sentimento assim: suave.
Nem fui suave para alguém.Não tenho voz, corpo nem sequer olhar suave......nenhuma das pessoas que amo são suaves...elas entram e saem da minha vida de forma bruta e rasgada.
E o que desenham na minha história não é recordação suave, é alegria, riso, frase e momentos violentamente amorosos, felicidade bruta e rasgada...
As ficam comigo, insistem em me aceitar, matéria prima, incapaz de virar poesia suave...
O amor não tem suavidade, mas eu insisto em querer pensá-lo assim...
Não gostaria de assumir que gosto de sentir por alguém sentimento tão dilacerante e irascível.
Com o que sei sobre amor, não dá pra fazer poesia suave...

Sobre a saudade.


Saudade é assumir uma insatisfação...
não estar pleno de alguém...
precisar de mais ouvi-lo, vê-lo,
de ainda saber-se perto,
mesmo que seja realidade remota.
É reconhecer que ainda falta gesto, palavra, som... e sobra ausência.

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Soares




Gosto de sentir inteiro.
Para tanto é preciso uma entrega absoluta.
É preciso conseguir ver o horror e a efemeridade de saber-se cegamente feliz... ou ver a importância de um momento triste, saber o quanto este também é passageiro.Vejo utilidade até na coisa mais vã, como uma forma de proteção, não saber o quão desgraçado se é diante da impotência de não saber fazer-se feliz...O meu sentir inteiro é uma forma de abandonar-me, não consigo sentir a totalidade das coisas sendo eu, compacta... preciso tornar-me etérea e captar o não-material...
absorver o que sendo eu, às vezes tão Rocha, fossilizada dentro do meu hermético, egoísta e desinteressante universo não consigo ver...Preciso tomar emprestado o estar das coisas, ser somente a música, ou o ácido, ou de forma claustrofóbica me hospedar em quarto alheio, inconsciente, cama cega que me abriga sem me analisar, pra descobrir em meio a mendigas filosofias que sentir é uma forma de anestesiar-se do mundo vulgar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Resumo.



Durou quase um minuto.
Durante quase um minuto tive a verdadeira constatação de que irei morrer.
Foram rápidos e intermináveis segundos de realidade, tão palpáveis, tão cruéis, que quase atravessei a janela do ônibus.
Eu nem precisava estar naquele ônibus, nem precisava daquela manhã.Eu nem precisava saber disso com tanta clareza, durante desafinados instantes pude ter tanta, mas tanta certeza de que morrerei que congelei meus olhos fixados nas gotas de chuva da janelinha...e pude até sentir o corpo envelhecendo, sentir a vida escapando pelos ponteiros do meu relógio.
Senti pânico, como levitação forçada em atmosfera que eu não queria, num vazio onde ninguém caberia, nem a palavra "por quê?” ·
Sonhei com o quanto eu sou dispensável, afinal se eu não fizesse o que eu faço, outra pessoa estaria fazendo.
Pensei no efêmero, na carniça que um dia será meu resumo.
Naquela hora eu parecia um cérebro boiando na cadeirinha do ônibus, pensando e observando os pedaços soltos do meu corpo, como se fôssemos trechos dispersos, fascículos atrasados de coleção já esgotada, como se fôssemos gente.
Mas ainda bem que éramos apenas segundos, correndo atrás dos ponteiros daquela manhã...

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Sobre as palavras...


...não tenho muita intimidade com estas porque sempre me fogem quando gostaria de me enredar em suas cores e sons.
Nunca estão comigo quando quero pregar um pensamento no mundo físico e fico no espaço, levitando na minha mudez...
Ou ainda pior, quando me escravizam, todas juntas, atropelando pensamentos e eu, rendida ao que julgo ser genial, me vejo tagarelando sandices, sem parar, incapaz de ordená-las de modo coerente e agradável...
Para depois, vê-las, as palavras, rindo de mim,
retumbantes, saudosas dentro da memória:
"ninguém te entendeu, ninguém...”
Chegam-me "póstumas" : aquela que eu quase disse,
ela apareceu depois, dias, anos atrasada;
justa, na medida certa, mas atrasada
e aliada a um eco permanente, fiel como cão guia.
As insuficientes, eu somo aos adjetivos, advérbios de intensidade e nada...
elas ainda não traduzem nem a superfície do que penso...
Tenho também muitas traidoras, quando eu reparo, pronto, disse o que não queria ter dito, pior, disse O CONTRÁRIO do que queria ter dito!
Nunca o homem criou algo tão distante de si próprio,
aberração que me cerca, engana, domina e engole.
Fazem ciranda na minha mente, tilintam nos meus ouvidos e vazam,
deformadas pelas pontas dos meus dedos, para depois se perderem em outros olhos, labirintos de universos tão diversos para se transformarem em todas as coisas que eu nunca, nunca disse.

domingo, 25 de setembro de 2005

Introdução



É aqui onde eu moro.
Vim pra cá da maneira mais barata possível.
"Sonhando".
Acordei e ainda estava aqui, percebendo que cá estou, porque sou parte disso.
Quando eu tinha uns 20 anos eu escrevia "mar" na areia da praia só pra ver a onda levar a palavra com ela.Precisava morar perto do mar.Eu sentava na areia e ficava desejando...
Nas minhas tristezas, imaginava um lugar como este onde estou e tinha uma vontade louca de conhecer outras águas, ver o mar todo...
Com 20 anos eu me atirava em abismos sem conhecer o meu caminho de volta.Morar aqui me dá a sensação de ter chegado no lugar certo, no tempo certo.
Pra ter a certeza de que as palavras me aceitaram, precisei esperar, sentir doer minhas raízes, que insistiam em penetrar num solo doce demais pr'aquela amargura que eu lhes trazia. Deixei cada veia do corpo beber da doçura que tinha tanto procurado, deixei os olhos verem toda beleza dos lugares mais secretos desta terra, escutei cada palavra que o vento me disse, deixei, enfim, meu coração repousar no colo dos versos que aqui me esperavam.Era por eles que eu procurava.